terça-feira, 9 de abril de 2019

Jorge, Julieta e Frajola

Era uma vez uma gata anã. Ela não era anã, exatamente, mas sua magrelice e pequenez me faziam chamá-la assim. Quando ela começou a parir filhotes, passei a querer um de seus bebês, que certamente também seriam anões como ela. Ora, um apartamento anão só poderia abrigar um gato igualmente anão. Claro que a querer um gatinho somava-se uma súbita vontade de estar perto do dono da gata anã. Mas isso não vem ao caso.

No dia 2 de outubro de 2018, a gata anã, preta e branca, paria em silêncio em uma caixa gatinhos minúsculos. Sempre me disseram que as gatas davam cria no telhado, longe da intromissão dos humanos. Buscamos deixa-la em paz. Vínhamos olhar de vez em quando se de seus gemidinhos baixos havia saído outro gatinho.

Saíram três no total. Um deles, preto e branco; um completamente preto e um que, lambida a meleca que o envolvia, revelou-se literalmente meio preto e meio cinza. Havia um risco que parecia feito à régua no meio de sua cintura que dividia os dois tons. E eu, que sempre quis um gato cinza, adorei a ideia de ter um meio cinza... afinal... as coisas não podem ser apenas preto e branco, já dizia meu terapeuta.

Então pronto. Tinha um gato, macho, anão e meio cinza. Jorge, batizei-o. E era Jorge pra cá, Jorge pra lá. Jorge, o gato anão meio cinza, não gostava muito de colo e miava desesperadamente ao sair do chão. Medroso, se escondia nas tetas da mãe e, as vezes, embaixo dos irmãos.

Passado uns dias, esticaram as pernas, começaram a desbravar o quintal. Logo, roubavam ração da cachorra. Foi aí que o gato preto e branco revelou ter bolas que aos outros dois faltavam. Jorge era fêmea.

Chamei-a Julieta.

Julieta estava prestes a se tornar a única gata do apartamento quando surgiu uma ninhada resgatada em São Paulo onde havia alguns exemplares brancos acinzentados. Um deles, macho. Eis: tinha achado meu Jorge. Sua salva-vidas concordou em lhe dar lar temporário até que o apartamento fosse entregue. Sosseguei. Teria dois nenéns pra mimar.

Eis que a gatinha preta irmã de Julieta fora adotada e seu irmão, o gato preto e branco, fora prometido a uma família. Chamamos ele de Frajola, por pura falta de criatividade e a família que o queria nunca apareceu para buscá-lo. Nesse meio tempo, Frajola começou a se mostrar um gato sem igual. Carinhoso, curioso, extremamente inteligente. 

Julieta, no entanto, continuava fugindo ao me ver. Gata ingrata. Eu é que te adotei! Vou te levar pra casa, te dar cama, comida e carinho...! Eu resmungava e Julieta fugia ainda mais. Frajola, no entanto, deitava no colchão comigo nas noites solitárias e brincava com as bolinhas de papel que eu amassava e jogava pra ele no chão. 

Decretou-se: Frajola estava fora da lista de adoção!

Jesus Cristo, três gatos em um apartamento. Meu cérebro tentava calcular quantos eram os quilos de ração que iriam me levar à falência. Logo eu, mãe de trigêmeos! Foi quando contatei a salva-vidas do Jorge, que me relatou constrangida que imaginou, pela demora, que eu havia desistido de adotar o gato, a quem seu marido estava extremamente apegado. Dei-lhe a guarda do gato e disse que poderia ser como sua madrinha, já que o havia batizado. Era justo. Ela havia cuidado dele desde o resgate, dando amor, carinho, comida, vacinas e tudo o mais. 

A moça ficou feliz da vida e eu, felizmente, com apenas dois gatos. Frajola: o gato que conquistou seu espaço no meu coração e Julieta, que era Jorge e que era meio cinza (pois a gata-ingrata ficou totalmente preta umas semanas depois de nascer, sendo diferenciada da irmã apenas pelo escândalo ao ser tirada do chão). 

Uns meses e duas castrações depois, ambos foram recebidos no novo lar, onde encontraram mais caixas de papelão do que tinham visto em sua vida toda. 

Tudo isso pra dizer que, às vezes fazemos planos e - na grande maioria - os planos é que nos fazem. Planejei um gato-macho-cinza-Jorge e acabei com um casal de irmãos que me acordam antes do despertador. 

Hoje, Julieta não tem mais tanto medo de colo: ao contrário, ronrona feito um trator. Frajola tem o dobro do tamanho, apesar da mesma idade. Os dois esnobaram a cama que comprei e gostam das caixas, como prometem os memes. Ele brinca com a bolinha de papel e Julieta observa. Estrearam a caixinha de areia do apartamento com um xixi coletivo e no dia que a casa alagou porque deixei a janela aberta, ficaram escondidos juntos embaixo da cama, no meio do alagamento. Frajola já fez xixi na parede uma vez. Surtei. Depois pedi desculpas pela bronca e expliquei que não pode, porque dona de gato quando vê já tá falando com eles, como se fossem gente. Eles se escondem quando varro a casa e arregalam os olhos quando ligo o secador de cabelos. Outro dia, nos desesperamos com a fuga da Julieta e, quando vimos, estava embaixo do sofá. Todo dia, pelo menos uma vez, acho que a gata sumiu mas ela está só camuflada no tapete preto. Eles veneram a caixa onde escondi a ração. Eles têm apelidos. Jólis e Jubs. Ou Jubilubs. Ou Ju. Mas minha mãe não aprova esse último, em defesa da minha amiga Juliana. 








Lambeijos! 

terça-feira, 2 de abril de 2019

#o13dobloco5

Não, não da pra chamar de solidão. Ao contrário: sobram mãos dispostas a ajudar e agora nem tem mais um lado vazio no sofá.

Não dá pra chamar de aperto. Ao contrário: os 55m² são bem maiores que o quarto dividido, com guarda roupa, cama e barulho alheio.

Não dá pra chamar de improviso. Ao contrário: já tem chuveiro, box, cama boa, fogão, armários, mesa, sofá e até tapete. E apesar de ainda não ter pratos ou geladeira, o que não falta é jeito pra dar. 

Não dá pra chamar de bagunça. Embora seja também. 

Não dá pra chamar de silêncio. Há gatos que arranham caixas de papelão, derrubam o pote de água e perseguem um ao outro durante a madrugada. 

Mas existe sim: um silêncio que mora no meio da bagunça e uma ordem improvisada (e aperto todo dia cada um dos gatos)...

E logo eu que sempre desejei tudo pronto, me pego apreciando cada passo. Cada detalhe. Cada novidade. Cada conquista.