domingo, 7 de fevereiro de 2021

com quantas gotas se faz um copinho de cachaça (de leite)?


Hoje completamos nosso primeiro mês de aleitamento materno exclusivo em livre demanda. Tão difícil quanto lindo, tão doloroso dar quanto não dar.

Depois das duas primeiras semanas, que foram de dúvida e dor, quis desistir - como acho que todas já quiseram em algum momento. Mas chorei porque queria, mas não queria.

Na próxima mamada, estava lá novamente.

E no dia seguinte o céu se abriu e as coisas começaram a ficar mais simples. Revisei meus estudos sobre pega correta, respirei fundo e me apoiei em toda a teoria (peito é fábrica, não estoque; leite materno é tudo que seu bebê precisa; livre demanda é importante...) e encontrei a paz que precisava.

Também na terceira semana, Davi passou a me olhar enquanto mama. Não sempre... Mas as vezes ele firma os olhos nos meus e aperta forte um dos meu dedos com a sua mãozinha - mas eu me derreto mesmo quando, já caindo no sono, de olhos revirados, ele sorri, com o peito ainda na boca, como que dizendo "estava uma delícia, mamãe, obrigado mais uma vez".

E a cada "obrigado mais uma vez", eu sorrio também e volto na próxima mamada, com todo o amor.

Não é uma escolha fácil, mas era a única que poderia fazer.

(...)

domingo, 24 de janeiro de 2021

Antes do princípio - do trabalho de parto

Relato de parto, parte 2: o pré-parto


Eu não estou aqui para ensinar pra ninguém nenhuma receita de bolo. Não estou aqui pra mostrar o segredo de um truque de mágica e nem pra comprovar com quantos paus se faz uma canoa. Esse é - assim como outros textos que vieram e que virão - apenas um relato da minha experiência pessoal porque tenho em mim essa necessidade de escrever...



Queria dividir que meu pré-parto começou há muitos anos, muito antes sequer de eu conhecer meu marido e pai do meu bebê. 

Quem me conhece sabe (mas vai que o blog ganha novos leitores, né?) que eu sou jornalista e trabalho desde 2013 como assessora de comunicação da Prefeitura de Cabreúva. Fiquei até 2015 como assessora direta da Secretaria da Educação. Lá, entre as creches, um programa muito interessante era posto em prática: o Primeiríssima Infância (que depois passou a ser política pública estadual e se chamar São Paulo pela Primeiríssima Infância - o SPPI). Esse programa tem o objetivo de cuidar das crianças dos 0 aos 3 anos, época do ápice do desenvolvimento. Pra cuidar desde os "zero", o programa inclui um olhar atento as gestantes e puérperas (essa pessoa recém parida, recém mãe, recém chegada a esse mundo todo novo). 

Em 2015, logo antes da Santa Casa ser reinaugurada (depois de uma brutal reforma), eu passei a assessorar a Saúde. Quando comecei a escrever sobre saúde, não tinha nenhum encanto especial pela pasta ou pelo tema. Com o tempo, coisas foram acontecendo, projetos foram sendo implantados e, aos poucos, fui aprendendo e me apaixonando.

Continuava responsável por acompanhar os acontecimentos do SPPI, e por trabalhar com a Saúde eu me aproximei mais das ações em prol dos "zero anos": parto, pré-natal, pós-parto, amamentação, entre outros, passaram a ser temas recorrentes das minhas matérias e entrevistas,

No meio de 2015 - e graças a esse programa - a Santa Casa mudou seu protocolo de parto, contratando enfermeiras obstetras para serem as condutoras dos partos de risco habitual e inaugurando a sala PPP (a sala foi chamada carinhosamente de Quarto Semente - onde a parturiente vivia seu trabalho de parto, o parto em si e os primeiros momentos do pós parto, com atendimento humanizado, menos intervenções médicas, corte do cordão umbilical tardio, amamentação na primeira hora de vida e diversos outros "conceitos" "inovadores" para o SUS). A sala, em si, não tinha nada demais. Uma maca, um berço aquecido, chuveiro, umas barras presas na parede, uma banqueta, uma bola de pilates e era isso. A mudança, afinal, não seria feita com coisas e nem com dinheiro. Foram elas, as enfermeiras, que transformaram a realidade. 

E eu passei a frequentar semanalmente a Santa Casa. Palestras, cursos, visitas guiadas, encontros de gestantes e famílias grávidas, reuniões de planejamento, eventos como a Semana Mundial do Aleitamento Materno: foram centenas de momentos que foram compondo o meu pré-parto (e nessa época eu nem sabia que queria ter um filho...).

Lá, três enfermeiras se tornaram minhas "amigas secretas" - secretas porque eu admirava tanto o trabalho delas que comecei a considerá-las minhas amigas, pessoas tão queridas e de quem eu adorava estar perto, mas acho que só eu sabia disso. Talvez, pra elas eu fosse apenas a jornalista da prefeitura, uma colega de trabalho, talvez, mas eu as tinha como minhas amigas, tamanha a alegria de ouvi-las falarem do parto humanizado. Eu era feliz nas minhas pautas da Santa Casa. Eu me divertia, admirava aquela equipe, seus gestores, as pacientes... E saía sempre mais encantada do que havia entrado. 

Para divulgar o trabalho que estava sendo realizado na Santa Casa, eu tive a oportunidade de presenciar quatro nascimentos, para filmar e fotografar: dois partos normais e dois partos cesárea. Lembro até hoje a sensação do primeiro deles. Um parto normal a jato, um acompanhante pra lá de presente, uma mulher pra lá da partolândia (lembro com clareza do seu olhar que me atravessava sem ver, imersa que estava em si e no seu momento), que trouxe sua bebê ao mundo de uma forma linda, forte, verticalizada, uma enfermeira obstetra queridíssima, que falava baixo, dava força e orientações e respeitava o tempo daquela família.

Aquilo me marcou muito. Foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Ver a vida chegar, ver uma família nascer.

A primeira cesárea também me marcou. Lembro do arrepio que eu tive com a anestesia, com o cheiro de carne queimada... A moça estava ótima e feliz mas eu me senti mal. Foi diferente do outro parto e lembro de te pensado, ainda dentro do centro cirúrgico: "se Deus quiser esse será o mais perto que eu chego de uma cesárea" (tenho medo de cirurgias, podem me julgar rsrs).

E ali, eu decidi minha via de parto! Dali pra frente, li muito, pesquisei muito, vi documentários... Achava que queria ser doula. Claro que não, só queria ser mãe. Mas eu teimava com o meu terapeuta e seguia o baile da auto ilusão, até porque um bebê não fazia parte do meu cronograma (sim, eu tinha um cronograma a cumprir antes do bebê e ele passava necessariamente pelos itens apartamento e marido - pra mim sempre foi inconcebível fazer de outra maneira). 

Eu usava do jornalismo como desculpa pra saber das coisas e sempre tive uma paz muito grande com a minha série de decisões inquebráveis (leia mais sobre minha história com a amamentação no próximo relato rs).

Em 2017, o carnaval de Cabreúva foi cancelado por questões financeiras e parte da verba foi destinada a a uma reforma da Santa Casa - ajustes internos e a construção de um bloco administrativo, que liberou uma sala grande dentro da maternidade, onde foi construído o novo Quarto Semente: maior, mais equipado e, dessa vez, com uma bela banheira.

Eu estava lá durante a reforma. Acompanhei, fotografei, escrevi. Estava lá quando a banheira foi instalada, Estava lá vendo aquelas pessoas incríveis encantadas com aquela estrutura (coisa que nem convênio tem, quem dirá o SUS...). Estava lá quando a sala foi inaugurada, em 2018, com toda pompa, com cobertura da TV regional e muita alegria. Estava lá quando as parteiras (as enfermeiras obstetras maravilhosas) receberam treinamento para conduzir partos na água (com uma professora para lá de maravilhosa, vindo direto da tão admirada Casa Ângela, em São Paulo, referencia em partos normais humanizados...). Aquele quarto novo, aquela banheira, aquelas pessoas... Significam muito pra mim.

Estava lá, quando nasceu o milésimo bebê após a reinauguração! E também quando a Santa Casa e seu projeto de humanização do parto foi reconhecido como uma das 10 melhores práticas do Estado com relação ao Programa São Paulo Pela Primeiríssima Infância. Estava na inscrição, estava na gravação do vídeo de inscrição, estava na premiação. Aquele prêmio, aquela vitória, aquele reconhecimento: era um pouco meu também. Me sentia tão parte daquilo que comecei a sonhar com o meu próprio parto.

Quando engravidei, de fato, estávamos (estamos ainda) na pandemia. Isso tirou de mim (e das outras grávidas cabreuvanas) toda e qualquer oportunidade de se sentar pra ouvir. Todos os eventos, encontros, palestras, rodas de conversas e semanas maravilhosas foram canceladas. A Saúde estava (está) focada em conter o vírus. Eu, isolada dentro de casa sem nem uma amiga grávida pra me fazer companhia virtual. 

Isso me encheu de tristeza porque em cada um desses eventos eu imaginei como seria quando chegasse a minha vez. Me imaginei sentada entre elas, as grávidas, ao invés de estar em pé num canto com uma câmera e um bloquinho. Ostentaria minha barriga pra lá e para cá e reforçaria todo o conhecimento já adquirido.

(Também passei anos desejando ter as fotografias do meu parto. Sim, já que eu estive lá pra fotografar o de outras mulheres. Também não foi permitido por causa da pandemia. Pena...)

Mesmo sem ter a chance de estar "enquanto grávida" nesses eventos e encontros, sei que toda a bagagem adquirida antes mesmo de querer engravidar foi o que me deu paz com a minha escolha pelo parto normal e com a equipe daquela instituição. 

Ter um vínculo afetivo com a Santa Casa (e muita informação) foi um ponto pra lá de importante do meu parto. Mesmo não conhecendo a equipe que estava me atendendo, especificamente, eu conhecia o hospital, seus protocolos, o "jeito de pensar" da instituição não só sobre partos mas sobre amamentação, humanização, entre outros. Confiar na maternidade me garantiu paz no coração pra focar em mim e no meu corpo, sem me preocupar com intervenções, com desrespeito, com violência obstétrica... 

Sei que é surreal pensar que "me preparei" por mais de 5 anos para o meu parto. Sim, é mesmo. Na vida real, temos sete ou oito meses pra absorver a informação que precisamos - e é TANTA COISA pra saber - até o dia de parir. Mas meu pré-parto foi assim. Longo, complexo, cheio de histórias e emoções. 

Talvez por isso tenha passado minha gravidez toda tão tranquila. 

Não fui atrás de outro hospital e nem me preocupei com a possibilidade de não dar certo o meu plano/sonho do parto normal. E no fim, deu mesmo tudo certo. Talvez por eu ter confiado demais. Talvez porque meu inconsciente teve tempo de se preparar. Talvez porque o parto normal dá certo independentemente dos cinco anos de conteúdo acumulado - só porque a natureza é sábia e ponto final. 

Só sei que a Santa Casa sempre fez parte do meu desejo pela maternidade - e foi tudo exatamente como eu sonhei. Eu vivi na pele a realidade que tanto divulguei nos meus textos, vídeos e fotos. E muito me alegrou ver que só vendi verdades em cada palavra e cada click.





quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

a tal vida real


A tal vida real. O prato de comida já esfriou, você nem sabe que horas são. O chorinho só passa no colo. Quer dormir, mas não consegue. Ele, na posição preferida. Você, morrendo de dor nas costas: dez quilos a mais, ainda de pijama. Anda pra lá e pra cá. Nada. Choro. Toma o peito. Não quer. Choro. Anda pra lá e pra cá. O choro passa, mas os olhos estralados denunciam que não está dando certo. Você recorre ao secador de cabelo e seu ruído branco de que tanto falam por aí. E reza. Reza pra cria dormir, porque se ela não dorme agora, a coisa só vai piorando. Os hormônios não sintetizam, a pega só peito não acontece, o stress aumenta - dele e seu. O secador assusta no primeiro momento, mas segundos depois você já sente o bebê relaxar. Menos a mão, que aperta firmemente seu sutiã, como quem diz "é aqui que quero ficar, mamãe, não me põe no bercinho quando eu dormir". Até que, enfim, o bebê dorme. Até que, enfim, sua expressão suaviza. Sutilmente, como se o mundo dependesse da sua delicadeza, você o coloca no berço. Em cinco minutos, ele acorda. 

E vida que segue.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ele, o parto

Relato de parto - parte 1




De tanto ouvir Anunciação na barriga, Davi veio ao mundo em uma manhã de domingo.

Os sinais começaram tão cedo quanto a ansiedade. Dez dias antes, fui pra Santa Casa de Cabreúva com cólicas pra ser avaliada. Eram quaaaaase 2cm de dilatação, nem perto da brincadeira começar - e fui embora frustrada. No dia seguinte a frustração deu lugar a uma paz pela informação: ainda não era hora, mas tá chegando. Ok. Respira e não pira. Fui viver a vida, já de olho na data provável de parto - 24 de dezembro. Nesse dia, as contrações e cólicas vinham com um certo ritmo e fiquei empolgada achando que era dia - mas não era. 

Conversei com uma amiga enfermeira obstetra (@sementematerna) e ela me orientou a passar um longo tempo no chuveiro e observar se as contrações aumentavam ou diminuíam. Fui, feliz da vida, mas o banho quente fez as dores passarem, assim como meus motivos pra procurar a maternidade. "Amanhã, quem sabe", pensei e fui dormir. Dia 25 nada, 26 nada. 

Vinte e seis foi um sábado normal: fizemos faxina, almoço, dancei, dei risada, vimos série na Netflix até tarde. Em um dos episódios, passado da meia noite, comecei a marcar o tempo das dores, sem alarde. Não queria me empolgar de novo pra elas passarem e não ser hora ainda, mas dentro de mim algo dizia que era...

Meia noite e meia e desisti de ver série, as dores vinham com intervalos de 3 minutos - ótimo sinal! Falei pro meu marido (@gui_leo_davi) que se continuasse assim por mais meia hora, totalizando uma hora cravada, iríamos pra maternidade pra eu poder ser avaliada. 

Essa foto na varanda foi mais ou menos nessa hora. Aguentei até uma e meia, tomei um banho e falei: "e aí tá preparado pra ter um neném?!", mas acho que na verdade e estava perguntando pra mim, mesmo. 

Chegamos na Santa Casa por volta das 2h mas estava apenas com 2cm de dilatação, o que quase me matou de frustração. Como assim, nem um cm de dilatação a mais??? Que saco! Mesmo assim, fiquei em observação: fiz cardiotocografia, tomei Buscopan e nada da dor ir embora. A enfermeira obstetra @adriana_piinheiiro me orientou a ficar um bom tempo na bola de Pilates no chuveiro. Fui pro Quarto Semente com o coração cheio (em outro relato especifico tudo o que esse quarto - esse projeto - representa pra mim). 

Sob a água quente e com a companhia indispensável do meu marido, vi as dores aumentarem. A cada "onda" elas vinham mais intensas. Eu já não estava marcando o tempo, só sabia que doía. E com o tempo, fui perdendo a pose e as posições. Doía sentada, eu me levantava. Doía de pé, sentava de novo. Água nas costas, água na barriga, mãos agarradas nas barras na parede. Lembrava com uma constância incrível de uma das entrevistadas do documentário A Dor do Parto. Ela dizia que quando tinha contrações, fechava os olhos e contava: um, dois, três... até passar. Eu lembrava dessa moça e tentava contar, mas me perdia em todas as contagens. Deixei pra lá e continuei meu mantra de ais e uis, tentando respirar o máximo possível.

Num certo ponto, tudo o que eu queria era deitar um pouco, minha lombar doía bastante. Perguntei a hora pro Guilherme, ele respondeu que eram quatro e quinze. Fiquei em choque. Como assim já faz duas horas que estou aqui? Pedi pra que ele chamasse a enfermeira, pra perguntar se eu podia me deitar. As 4h30 ela me reavaliou e fui internada com 5 cm de dilatação. Uma evolução e tanto pra uma primigesta, até eu sabia disso. Um misto de alegria e medo, coberto de uma dose de realidade de que agora era hora e não dava pra voltar atrás.

Nessa hora, passei mal. Não conseguia mais falar e, quando tentei, vomitei por todo o banheiro todas as ânsias que não tive durante a gravidez. Não foi uma cena bonita. Mesmo sabendo que o parto é um evento cheio de secreções, a gente - no fundo - quer que seja tudo limpinho. Da vergonha. Da medo. Dói. Suja. Mas é assim. 

Daí pra frente, fiz caminhada no Solário, sob a luz da lua e a brisa de verão. Cada contração que me parava, me punha caretas na cara, me fazia pensar que estava perto. Aquele momento tão esperado, desde antes de engravidar. A hora de parir, de por no mundo. Que medo. 

Não sei que horas eram, mas atingi a dilatação total. "A partir de agora pode fazer força, quando sentir vontade" - me disseram. "Não quero", pensei. "Quero, mas não quero. Vai doer. Vai rasgar. Vou me machucar, não quero" - eram pensamentos recorrentes. Eu sabia que a hora da covardia chegava. Já presenciei ela chegando pra duas mulheres cujos partos eu assisti e li relatos demais pra achar que comigo seria diferente. Senti medo durante todo o trabalho de parto. Pensei na palavra cesárea o tempo todo. Mesmo assim, havia uma voz na minha cabeça - a minha voz - pedindo calma e me dizendo que eu sabia que tudo isso ia acontecer, que eu sabia como tudo isso ia acontecer e que eu havia feito a minha escolha com consciência e clareza. "Calma, respira, que vai dar tudo certo."

Cada método não farmacológico de alívio da dor foi me salvando de desistir (não que fosse uma opção real, mas na minha cabeça até que era). Banqueta, rebozo, banheira. Lembro também de mãos fazendo massagens com um óleo que esquentava, bem na minha lombar - não sei se eram do meu marido ou da enfermeira porque nessa altura do campeonato eu mal ficava de olhos abertos, tentando ao máximo respirar e me concentrar no meu corpo. Lembro da voz da enfermeira, das mãos do meu marido, apertadas pelas minhas. Lembro dele encostar o rosto no meu, falando perto do meu ouvido palavras de amor e incentivo. 

Lembro que me foi dada a escolha: poderia ir pra banheira pra aliviar a dor, mas talvez a água retardasse o trabalho de parto. Ou podia continuar na banqueta e ir para o expulsivo. Escolhi a banheira. Eu vi ela chegar, ser instalada, inaugurada, testada, vi enfermeiras recebendo treinamento sobre parto na água, escrevi sobre ela e tirei muitas fotos pra não querer estar lá. Sempre quis. Sempre sonhei. Até achei que meu bebê poderia nascer lá. A água, que sempre foi minha amiga, me abraçava e acalmava. Me agarrava no meu marido e o apertava, consciente de que ele devia estar desconfortável com os apertos mas cansada demais pra falar qualquer coisa. Aquela banheira resgatou um pouco da minha energia e calma. Eu estava com medo do expulsivo e uma parte minha quis adiar aquele momento. 

Na água, minha bolsa rompeu naturalmente. Era a hora de fazer força e eu tinha medo. Mas também queria que ele nascesse. Queria poder descansar. Estava sem dormir e não sabia que horas eram. Queria parar um pouco mas sabia que não dava. Voltamos pra banqueta pra por o bebê no mundo e eu demorei pra entender onde colocar a força. Tinha os olhos fechados o tempo todo, ouvia a enfermeira e meu marido, ouvia outras pessoas no quarto - médicos e outros profissionais aguardando o bebê nascer.

Precisei de algumas longas forças pra conseguir trazer meu filho. Eu consigo lembrar claramente - uma lembrança sensorial - da sensação dele passando e acabando com toda a dor, do corpo escorregando depois da cabeça, mas a lembrança da dor anterior é maior - talvez por isso muito se fale sobre a dor do parto e muito pouco sobre o alívio que ele traz. Pari Davi sentada na banqueta, abraçada pelo meu marido.

Assim que veio ao mundo, ele foi dado pra mim. 

Davi nasceu as 6h38, na Santa Casa de Cabreúva (SUS) num parto normal humanizado sem intervenções. Nasceu com 2,920 kg e 48 cm, amparado pela enfermeira obstetra plantonista.

Quando ela me entregou o bebê, vi que ele estava molenga e não chorava. A enfermeira me disse com toda a calma "respira, que ele está com o cordão umbilical ainda e tá tudo bem. Respira". Eu percebi meu marido tenso com a cena, mas não consegui falar nada. Estava ofegante, coração acelerado. Sentia meus olhos apenas semi abertos, mas agora via tudo, entendia tudo. Havia saído da partolândia e estava apenas me acostumando com a claridade. 

Como já tinha visto alguns partos fiquei tranquila com o corre corre que se seguiu, apesar de alerta. Aquela equipe sempre teve toda a minha confiança. O cordão foi cortado rapidamente e o bebê levado ao pediatra, ali, do meu lado. Eu segui no chão, na banqueta, abraçada pelo marido e assistida pela enfermeira, que cuidadosamente, como quem tece algo numa lã muito delicada, me ajudava a parir a placenta. O procedimento foi sutil e totalmente indolor (na verdade não sei se normalmente isso dói ou não, mas vi uma certa poesia no movimento de enrolar o cordão em câmera lenta e ir puxando a placenta centímetro por centímetro. Ela tinha um rosto calmo, concentrado, mas em paz. E quando olhei pra ela e pra placenta e entendi que tinha realmente - finalmente - parido meu filho, fiquei em paz também). 

Enquanto isso, a equipe cuidou do bebê, que nasceu cansadinho pela demora do expulsivo. Ele chorou, o pediatra nos acalmou, tudo estava bem. 

Eu fui sendo avaliada e cuidada, o bebê também, mas todo esse acaso não permitiu que ele ficasse comigo nesses primeiros momentos, nem que mamasse na primeira hora. Meu marido também não pode cortar o cordão umbilical, mas tudo ficou bem e era isso que importava.

Tive uma laceração de 1 grau e precisei levar um ponto. Da banqueta, me levantei para ir até a maca e assustei com o sangue escorrendo por entre as pernas. Um sangramento normal e esperado no pós parto imediato, mas eu assustei mesmo assim. Enquanto cuidavam de mim, meu marido babava no nosso bebê. Vi seus olhos brilhando, sorrindo pra mim e pro bebê. Esse momento foi mágico e eu fiquei em paz.


Nos minutos seguintes, carreguei um pouco o bebê, ainda deitada. Logo em seguida, fui sozinha tomar um banho - sozinha porque não havia necessidade de acompanhamento e não por desleixo do hospital. Estava bem, alerta, sem dores. Tomei meu banho enquanto preparavam o quarto pra gente e meu marido ninava nosso filho. Fomos os três para o alojamento, onde ficamos juntos até a alta hospitalar, 36 horas depois. 

Na minha mente, apenas um pensamento: "caraca, eu consegui. Eu achei que não conseguiria, mas eu consegui."

Eu pari. Ele nasceu. 
"Deu certo."

Quem ler esse relato cheio de medo e dor, pode pensar que a experiência foi, de alguma maneira, negativa. O medo não é nosso inimigo, nem tampouco a dor. Eu sei, parece coisa de budista, parece conversa fiada. 

Digo sem sombra de dúvida que algumas coisas me salvaram de cair no penhasco onde o medo passa a ser descrença, pânico, desistência:

- A confiança nos protocolos da humanização implantados firmemente no hospital que me atendia; 

- A confiança de que, apesar do medo e da dor, meu corpo foi divinamente projetado para esse momento que é, por mais que a gente tente negar, fisiológico, natural;

- A tranquilidade de ter comigo em todos os segundos uma pessoa da minha confiança, pronta pra me amparar, me cuidar, me proteger e me dizer o que eu precisava ouvir. Alguém que passou meses (muitos antes até de eu engravidar) me ouvindo falar sobre humanização, fisiologia do parto, posições pra parir, intervenções desnecessárias, métodos de alívio da dor e jeitos de me ajudar nesse momento. Alguém que se dispôs a ver documentários e muitos vídeos de gente parindo por aí. 

Esses três, juntos, foram os responsáveis por me permitir fechar os olhos, olhar pra dentro, me conectar com o que estava acontecendo com o meu corpo, minha mente e meu coração naquelas horas e viver, de fato, o parto. 

O parto normal, o parto humanizado, o parto rápido, o parto sem intervenções, o parto com final feliz. O parto em que eu não era a fotógrafa, a repórter, mas a mulher. A leoa. A mãe. O parto tão desejado, tão almejado. Pro qual eu estudei e me preparei e no qual me vi muito antes desse momento chegar. 

Todo esse "preparo psicológico" me conduziu pra esse momento. Pra essa alegria dolorida e intensa. Pra essa conquista. Essa coisa que eu fiz, porque fui mulher, porque fui forte, porque fui força e fortaleza. Porque fui natureza e permiti que natureza fosse, em mim. 

E assim, me fiz mãe. E esse olhar fez tudo valer a pena.




sexta-feira, 27 de novembro de 2020

ela, a barriga

Primeiro, ela demora pra aparecer. Depois, quando aparece, é toda tímida e faz a gente parecer que acabou de sair de um rodízio japonês. Depois os botões começam a não fechar e ela surge de vez, toda pomposa, cada vez mais redonda. E quando você acostuma com ela, como se sempre tivesse sido assim, vê as fotos de umas semanas atrás e leva um susto: meu deus, como cresceu!!

Com o tempo, os chutes e cambalhotas são sentidos. Primeiro, só por nós, mulheres. Depois, os papais entram na jogada e começam a sentir também, conforme ficam mais fortes. Chega uma hora que a cada mexida lembra um camelo transverso (ou um alienígena tentando sair) e dá até pra filmar e mostrar pras pessoas. 

No terceiro trimestre, algo começa a enroscar nas costelas. Os soluços começam a ficar irritantes, porque são tão fortes... Levantar da cama já não era fácil e agora é uma aventura. 

Ela começa a pesar. Olhar pro chão e não ver os pés é uma novidade divertida. Falar "com a barriga" já não é algo esquisito (meses de prática + as respostas que vem em forma de chutes e pulos e giros, do carinha lá de dentro, ajudam muito).

E vai chegando a hora de me despedir dessa barriga redonda. É, estamos no nosso último mês. Claro, que o próximo encontro será inigualável, incomparável. Junto com a expectativa por ele, vem a saudade dela. Da barriga. Dessa introspecção. Dessa coisa só nossa. Das coisas que só a gente sabe e sente e divide. De te ter tão pertinho, tão protegido, tão confortável! Do nosso silêncio... 

Mas o tempo ruge, a Sapucaí é grande e os dias hão de passar. E você vai embora e vou trazer meu bebezinho. E lembrarei sempre com muito carinho dos nossos nove meses. 

#babyrosadearruda

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Amanhã é 23



Hoje, eu me deitei para dormir cedo, como tenho feito nós últimos meses: uma fresta da janela aberta, um gato ao pé da cama, meu marido ao meu lado. Dessa vez, ele dormiu profunda e rapidamente com a mão sobre a minha barriga. Bem ali, onde ele tocava, senti nosso bebê chutar de dentro do útero. E eu sorri no escuro com essa cena. 

Pensei nesse ano maluco, nesse ciclo que se encerra em meio a uma pandemia, que tanto faz a gente lembrar dos problemas, das dificuldades, das solidões, dos medos... Mas lembrei, principalmente, que foi nesse ciclo que realizei dois grandes sonhos: me casei (de véu e grinalda, lua de mel, chuva de bolhas de sabão e tudo depois) e engravidei. 

Pensei na lua de mel, na dança, no meu emprego e saúde, nas amizades cada vez mais seletas mas cada vez mais poderosas. Pensei no quanto eu me aproximei da minha família nesse dois mil e vinte. Pensei no prazer e na segurança que esse lar me oferece. Um lar cheio de gatos e móveis e amor. Um lar cheio de sonhos concretizados, cheio de risadas e outros sonhos que ainda vão nascer. E sorri no escuro com cada um desses pensamentos. 

Esse ano, a comemoração está sendo assim: eu, meu marido, meus gatos, meu neném chutador, um delivery ou outro, caixas de Bis, pijamas e os olhos brilhando em direção ao futuro que se anuncia. E acho que nunca estive antes tão feliz, tão em paz, com o meu aniversário, com meu ano, com o fim e o começo de ciclos tão importantes. 

É, 27, você foi demais! Obrigada, Deus, obrigada, Universo. 28: só vem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O segundo foi que foi


Difícil essa coisa de contar semanas. Primeiro porque parece que elas não passam nunca. Os meses voam, mas as semanas... se arrastam! Depois porque as inúmeras tabelas que tentam "converter" isso em meses ou - pior - trimestres (!!!) são todas diferentes e contraditórias. Mas, mesmo considerando a mais pessimista e enrolada das tabelas: passamos. O segundo trimestre foi-se.

Hoje, começo a vigésima oitava semana. O que significa que estamos no sétimo mês de gestação e  daqui 9 semanas (quando completar 37), a gestação estará "à termo", ou seja: a partir daí qualquer hora é hora, basta o bebê querer nascer. Eu, ansiosa que sou, nem fico me falando muito isso não. A conta é sempre até as 40 semanas: faltam 12! 

FALTAM DOZE SEMANAS PARA O NATAL, MEU POVO! (Sim!)

No segundo trimestre o medo de abortar foi embora. O medo de enjoar foi embora (embora tenha rolado uma ou outra azia, mil xixis por noite e, de vez em quando, até insônia). A barriga estranha que parecia só sedentarismo foi embora. A coisa foi crescendo e arredondando e um dia eu acordei e me deparei com uma barriga de grávida. Uma inquestionável barriga de grávida. Que delícia. 

Já desisti de fechar as calças... Fico bem irritada quando preciso me vestir e preciso trocar de roupa várias e várias vezes porque as coisas não ficam mais tão bonitas ou confortáveis. É bem chatinho... Mas, vivo basicamente de pijamas, então, vida que segue. Enquanto isso, lavar e dobrar roupinhas de bebê virou uma espécie de hobby. Depois da crise do "ai meu Deus, eu não fiz nada ainda", chegou o berço, a cômoda passou a abrigar roupinhas delicadamente lavadas e dobradas e organizadas e separadas por categoria (#luaemvirgem), o quarto já tem quadros e pelúcias e sabonetinhos de bebê e sapatinhos e um milhão de fraldas de boca e toalhas de banho e toda a sorte de coisas bordadas, personalizadas, com crochê e fita - e, juro, tem mais coisas pra chegar, porque aparentemente essa criança será a mais mimada da face da terra.

Ainda faltam, sim, algumas coisas pra serem providenciadas. Coisas que, as vezes, as contas do mês não permitem que você resolva logo. Mas dá tempo e não estou mais agoniada com o tempo que ruge. 


O segundo também foi de muito mato. Espinafre e abóbora e vitaminas de mamão com iogurte e  frutas no café da manhã e tudo o mais. Nunca antes um pacote de batata palha durou tanto nessa casa, juro. Mas essa semana, confesso, eu tô tão de saco cheio da cozinha, que não consigo mal entrar lá. 

Também teve muito mais choro. De amor, de alegria, de raiva, de solidão. Com comercial de maquiagem, com vídeo sobre educação de crianças, com basicamente qualquer coisa. É um misto de estar grávida com estar em distanciamento social. Mar de Hormônios na Praia de Sozinha o Dia Inteiro. É bem difícil. E tem dia que tá suave. Vai entender...


Teve muito chute. Que estranho e que gostoso é sentir um bebê mexendo dentro da sua barriga. Sabe nos desenhos animados quando as barrigas ondulam, pra demonstrar fome? É exatamente assim, depois de algumas semanas! O bebê encosta em tecidos que a gente não costuma sentir. A história deles sapatearem nas bexigas, é real. E dá pra sentir e  é imediata a vontade de fazer xixi, é divertidíssimo, apesar de ser a milésima vez que vou ao banheiro na última meia hora.... 

Ah e teve um susto também, quando, um dia desses, subi no banquinho pra pegar o liquidificador no armário e aquela coisa virou e me esborrachei de costas no chão. A bunda deu uma amortecida na queda, mas a cabeça também bateu. Fiquei deitada no chão, esperando a adrenalina baixar - meu coração estava disparado - e tentando entender o que tinha, de fato acontecido. Comecei a chorar e respirei fundo pra me acalmar. Esperei e dor nenhuma veio. Alisei a barriga, o neném chutou. Pensei: "tá tudo bem" e levantei devagar. Desisti do suco que ia tomar e fui pro sofá, ver se ia sentir alguma coisa estranha. A bunda doeu um pouco e de resto, ficou tudo bem. Levei uma bronca de um marido bem bravinho - como se eu tivesse outra opção a não ser subir no banco pra pegar coisas no alto - e agora toda vez que faço isso, o faço com atenção e medo redobrados. 

Demorou, mas passou. Foi que foi, que nem vi. Cada dia, a sensação é diferente e estranho estar num momento tão... Libriano rss

Que venham as próximas semanas, de crescimento, de ansiedade, de emoções à flor da pele. Que nem o inferno astral tire o brilho desses dias tão únicos. 

 E que o umbigo demore pra saltar. Amém.