Oi, Jaqueline do futuro.
Hoje é 12 de dezembro de 2025. Não escrevo há muito tempo, estou definitivamente enferrujada, então desde já desculpa qualquer coisa. Espero que quando você ler isso, você ria e pense no quanto escreveu no último ano.
2025 realmente não foi pra amadores. É difícil explicar como coisas tão complexas se acumularam - algumas boas, outras ruins, outras dignas de um pulo da janela do décimo quarto andar. Mas você sabe, porque você viveu tudo comigo.
Sabe que nos sentimos meio perdidas, absolutamente depressivas em diversos momentos. Sabe que houveram algumas horas de grande agonia, medo, solidão. Sabe também que teve esgotamento - e teve culpa por estar esgotada. Sabe que gritamos em silêncio e seguimos em frente fingindo demência por muito tempo. Como a Barbie Miss Simpatia: sorrindo e acenando.
Espero de coração que você se preste menos a esse trabalho: que você, ao longo de 2026 finja menos. Pare de falar que tá tudo bem quando não está, pare de rir de "piadas" sem graça, pare de concordar com frases que você nem sequer prestou atenção. Espero que você pare de ter medo de deixar o outro desconfortável. Afinal, se você está, o outro certamente sobrevive.
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Cara Jaqueline do passado,
Hoje é 11 de abril de 2026 - quase quatro meses depois que você me escreveu. Posso te dizer que muita coisa mudou daí pra cá. Nesse momento, por exemplo, estou tomando um vinho branco, ouvindo Rita Lee, na primeira noite na minha nova casa. Sozinha. Definitivamente, estamos parando de fingir que está tudo bem (e definitivamente tivemos que deixar o outro desconfortável algumas vezes)...
Coincidentemente, estamos olhando pra rainha dos ventos - sim, aquele quadro tão especial, daquela que sabe ser vendaval, tempestade, búfalo... e também a leveza do bater de asas das borboletas; aquela que não tem medo, que aprende, que domina, que encanta, mas que não treme, não se dobra, enverga mas não quebra. À frente, o vinho espanhol que estamos tomando hoje - Ícaro. Sim, aquele, que quer voar muito perto do Sol, enebriado com o gostinho da liberdade. Irônico, né?
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Jaqueline do passado, tudo bem?
Hoje é 17 de maio. O mal humor toma conta e a blusa de lã sintética não é o suficiente pra acalentar sequer o frio, quem dirá a frustração.
Estamos aprendendo sobre gatilhos comportamentais, tentando ouvir nossa intuição e impor alguns limites. A verdade é que as pessoas são desgastantes... Eu continuo me sentindo inadequada em muitos aspectos e ainda não-tão-livre quanto deveria.
Não sei onde desliga essa necessidade de validação e esse medo de ser mal julgada-olhada-interpretada (sei sim, é na terapia). Por que, afinal, o que eu faço com esses pontos que ganho com os outros? Troco por milhas?
Eu sei que é confuso pra quem convive comigo entender que minha versão boca-de-sacola e minha versão não-te-dou-detalhes-da-minha-vida convivem naturalmente. Mas elas convivem.
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Cara Jaqueline do presente,
Hoje é 1 de junho de 2026. Quatro meses de terapia depois e olha quantas coisas conquistamos (não, não me refiro ao TDAH e as altas habilidades, embora isso também tenha a ver). Nina Simone está cantando: its a new life for me and I'm feeling good... Nem sempre a gente tá 'feeling good', né? Sabemos bem. Mas parece que o propósito da vida não é bem a linearidade, mas a direção. Aproveitar o caminho, não apenas o destino, sabe?
Outro dia nos olhamos no espelho por um tempo e, passada a fase de desconforto inicial e aquela enxurrada de críticas a detalhes da aparência, parece que eu finalmente me vi. Logo eu, que tenho tanta dificuldade em olhar nos olhos das pessoas (normalmente encaro os lábios...) me olhei nos olhos e vi ali um cansaço e uma tristeza de quem apanhou da vida por bastante tempo.
Era um olhar empoeirado, murcho. 'Mas eu não estou me sentindo triste', pensei. E perguntei pra ela - aquela imagem - 'estou?'. Ela me olhou de volta, apenas triste e murcha. 'Será que estou e não sei nem identificar mais, porque isso virou o meu normal? Será que não estou, mas fui tanto, que me marcou os olhos?'
Cheguei a conclusão (precipitada, talvez?) de que aquele olhar era apenas um resquício de uma história - como cicatrizes: feridas que não sangram mais, mas ainda ficam marcadas, lembrando do que aconteceu, até que um dia se tornam apenas 'parte de nós' e mal as enxergamos.
De qualquer forma, sou uma mulher com uma missão: aprender a apreciar minha própria companhia (e se você não entende o que isso tem a ver com enxergar e aceitar os olhos tristes, não sou eu que vou explicar).
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