segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Firework

Outro dia, ganhei um desenho meu, feito por um homem que me admira. Achei o gesto fofo e agradeci. Ele brincou: "quando na vida um crush te deu um desenho?!"

Nos três minutos que demorei para responder a mensagem, muita coisa me passou pela cabeça. Lembrei daquele garoto, ainda criança, que me mandava cartas anônimas na quarta série, pra expressar seu amor avassalador. O primeiro amigo que se apaixonou por mim, dono do meu primeiro beijo, que me escrevia letras de músicas. 

Aquele rapaz, primo de uma amiga da minha irmã, que conversava por horas e horas comigo no MSN e me mandava cartas e conchas (ele morava na praia) e que até inventou um dia só pra nós (dia 1º de abril, que nomeamos o Dia da Verdade). 

Lembrei do meu primeiro namorado, que me amou pacientemente até que eu aceitasse um primeiro beijo - e que me enchia de desenhos, cartas e poemas escritos por ele, pensando em mim. Um outro amigo, que compôs uma analogia entre o amor platônico que tinha por mim e a Guerra do Kossovo (da qual, honestamente, nunca tinha nem ouvido falar até então) e que gravava CDs com as músicas preferidas da minha mãe e deixava bilhetinhos na minha apostila, durante o intervalo das aulas, pra eu encontrar quando voltasse e sorrir pra ele, do outro lado da sala. 

Lembrei de um colega de sala que aprendeu uma coreografia pra dançar comigo numa festa absolutamente aleatória só pra passar tempo comigo e, eventualmente, quem sabe, me dar um beijo. 

Lembro do segundo namorado que me mimava com fotos, declarações no Facebook, Sonhos de Valsa. Outro amigo, também momentaneamente apaixonado por mim, que me ouvia falar desse namorado atentamente, sem tecer críticas a ele, enquanto me fazia massagem nas palmas das mãos e me ensinava Geopolítica. Esse mesmo amigo, me recitava Fernando Pessoa pra dizer que entendia que não ficássemos juntos 'pois mais vale sentarmos juntos à beira do rio'.

Do terceiro namorado eu poderia lembrar de inúmeros momentos, mas lembrei de quando ele me deu um belíssimo buquê de rosas vermelhas no 15º dia de namoro. 

Em três minutos, incontáveis momentos românticos, vulneráveis e especiais, em que os garotos ou homens simplesmente não tiveram medo e nem mediram esforços para que eu soubesse que era especial.

Acontece que eu sempre fui muito bem tratada, respondi. E não digo isso na intenção de menosprezar a arte recente. Muito pelo contrário. Achei de um carinho absoluto. Mas não posso dizer que me surpreendeu, exatamente. Eu cresci com poesias profundas e canções apaixonadas. Dramas e juras de amor eterno. Lágrimas, diante de uma negativa minha. Saudades intransponíveis. 

Sempre fui amada em voz alta... E em detalhes. 

Mas a vida adulta vai diminuindo o tom... Os low profile dominaram a terra e agora os emocionados sofrem retaliações. Ninguém mais surpreende. Não dão mais flores, não enchem quartos de pétalas, ninguém cita meus textos de cor. Mal sabem, inclusive, 'meu disco favorito, o peso do meu coração'... Então, de fato, hoje em dia já não existem tantos desenhos ou poemas escritos à mão.

Será que depois dos 30, declaração de amor é colocar o outro na sua agenda? Mudar a rota, ajustar os planos? Sem canções de amor, sem tatuagens de casal, sem aquele desespero alucinado que nos faz achar que morremos sem o outro (porque, de fato, o ar chega a faltar)?

Até eu - que sempre fui a senhora textão, aquela cheia de palavras bonitas sobre o outro; intensa, nos amores e nos sofrimentos - parece, estou meio opaca. Às vezes acho que nunca mais vai acontecer... Uma paixão, um amor à primeira vista, aquele frio na barriga correspondido, que explode na hora do encontro. Há, sim, certas borboletas... Mas não mais o acelero, a urgência, a vontade de ladrilhar uma rua com pedras de brilhantes para alguém passar. Às vezes parece só a maturidade se instalando... mas será que é isso? Acabou? 

Ao mesmo tempo... Sabe aquela cena de Firework, da Katy Perry em que ela abre os braços e do peito dela saem fogos de artifício? Não quero nada menos do que isso. 

Abrir ao braços. Sorrir. Explodir de amor, contentamento, esperança. Me jogar - e ter quem me pegue antes da queda. 

Não aceito nada menos que isso.