terça-feira, 21 de maio de 2019

Encantamento

“a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros... a importância de uma coisa há de ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós... um osso é mais importante para um cachorro do que uma pedra de diamante...”
Manoel de Barros




Tem histórias que são tão nossas que não fazem sentido contar pros outros, mesmo querendo contar para todo o mundo. Tem histórias que são tão nossas, tão profundas e verdadeiras, que poderiam ser contadas em uma frase, sem vírgula e nem respiro. 

Escrevo pois acho que tenho memória ruim e tem momentos que não admito esquecer. 

Como quando você estava na varanda, encostado na porta de vidro: pijama e cigarro na mão. Eu largada no sofá, segurando o celular. Perguntei se queria ouvir minha música, a que escolhi pra minha entrada no grande dia. Você disse que sim e eu liguei o som.

Seus olhos fitavam o ar, mostrando os ouvidos atentos. Fixei meu olhar ali, ora nos seus olhos azuis, ora na sua boca. E fui vendo pouco a pouco sua expressão mudar. Quando a música deu aquela virada, seu corpo engasgou com o compasso do seu coração e você me olhou arregalado. Sorriu e vi o brilho azul marejar conforme o sorriso abria. Você levou a mão no coração e deu uma tossida tudo ao mesmo tempo, sem deixar de sorrir. Sem que seus olhos perdessem aquela magia...

Você disse "ai, quase chorei, aff maria"... 

E eu ri. Ri de alegria transbordando e disse: "pode chorar!"







Encantamento. Nunca vou esquecer dessa noite.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

ingrato gato

Hoje o gato fugiu. Viu a porta aberta e correu rumo à liberdade, que não encontrou pois a porta do hall estava fechada. Tentei pegá-lo e ele continuou correndo. Mirou a janela, mas caiu e consegui pegá-lo pela pela pança.

Me senti como meu pai deve ter se sentido quando, ainda criança, falei que não via a hora de sair de casa. Tentei bater-lhe na bunda, mas o zé ruela correu pra debaixo da cama pra planejar a próxima tentativa. Isso porque eu lhe encho de comida de qualidade, sachês de carne de cordeiro, água filtrada e bolinhas de papel.

Ingrato.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Jorge, Julieta e Frajola

Era uma vez uma gata anã. Ela não era anã, exatamente, mas sua magrelice e pequenez me faziam chamá-la assim. Quando ela começou a parir filhotes, passei a querer um de seus bebês, que certamente também seriam anões como ela. Ora, um apartamento anão só poderia abrigar um gato igualmente anão. Claro que a querer um gatinho somava-se uma súbita vontade de estar perto do dono da gata anã. Mas isso não vem ao caso.

No dia 2 de outubro de 2018, a gata anã, preta e branca, paria em silêncio em uma caixa gatinhos minúsculos. Sempre me disseram que as gatas davam cria no telhado, longe da intromissão dos humanos. Buscamos deixa-la em paz. Vínhamos olhar de vez em quando se de seus gemidinhos baixos havia saído outro gatinho.

Saíram três no total. Um deles, preto e branco; um completamente preto e um que, lambida a meleca que o envolvia, revelou-se literalmente meio preto e meio cinza. Havia um risco que parecia feito à régua no meio de sua cintura que dividia os dois tons. E eu, que sempre quis um gato cinza, adorei a ideia de ter um meio cinza... afinal... as coisas não podem ser apenas preto e branco, já dizia meu terapeuta.

Então pronto. Tinha um gato, macho, anão e meio cinza. Jorge, batizei-o. E era Jorge pra cá, Jorge pra lá. Jorge, o gato anão meio cinza, não gostava muito de colo e miava desesperadamente ao sair do chão. Medroso, se escondia nas tetas da mãe e, as vezes, embaixo dos irmãos.

Passado uns dias, esticaram as pernas, começaram a desbravar o quintal. Logo, roubavam ração da cachorra. Foi aí que o gato preto e branco revelou ter bolas que aos outros dois faltavam. Jorge era fêmea.

Chamei-a Julieta.

Julieta estava prestes a se tornar a única gata do apartamento quando surgiu uma ninhada resgatada em São Paulo onde havia alguns exemplares brancos acinzentados. Um deles, macho. Eis: tinha achado meu Jorge. Sua salva-vidas concordou em lhe dar lar temporário até que o apartamento fosse entregue. Sosseguei. Teria dois nenéns pra mimar.

Eis que a gatinha preta irmã de Julieta fora adotada e seu irmão, o gato preto e branco, fora prometido a uma família. Chamamos ele de Frajola, por pura falta de criatividade e a família que o queria nunca apareceu para buscá-lo. Nesse meio tempo, Frajola começou a se mostrar um gato sem igual. Carinhoso, curioso, extremamente inteligente. 

Julieta, no entanto, continuava fugindo ao me ver. Gata ingrata. Eu é que te adotei! Vou te levar pra casa, te dar cama, comida e carinho...! Eu resmungava e Julieta fugia ainda mais. Frajola, no entanto, deitava no colchão comigo nas noites solitárias e brincava com as bolinhas de papel que eu amassava e jogava pra ele no chão. 

Decretou-se: Frajola estava fora da lista de adoção!

Jesus Cristo, três gatos em um apartamento. Meu cérebro tentava calcular quantos eram os quilos de ração que iriam me levar à falência. Logo eu, mãe de trigêmeos! Foi quando contatei a salva-vidas do Jorge, que me relatou constrangida que imaginou, pela demora, que eu havia desistido de adotar o gato, a quem seu marido estava extremamente apegado. Dei-lhe a guarda do gato e disse que poderia ser como sua madrinha, já que o havia batizado. Era justo. Ela havia cuidado dele desde o resgate, dando amor, carinho, comida, vacinas e tudo o mais. 

A moça ficou feliz da vida e eu, felizmente, com apenas dois gatos. Frajola: o gato que conquistou seu espaço no meu coração e Julieta, que era Jorge e que era meio cinza (pois a gata-ingrata ficou totalmente preta umas semanas depois de nascer, sendo diferenciada da irmã apenas pelo escândalo ao ser tirada do chão). 

Uns meses e duas castrações depois, ambos foram recebidos no novo lar, onde encontraram mais caixas de papelão do que tinham visto em sua vida toda. 

Tudo isso pra dizer que, às vezes fazemos planos e - na grande maioria - os planos é que nos fazem. Planejei um gato-macho-cinza-Jorge e acabei com um casal de irmãos que me acordam antes do despertador. 

Hoje, Julieta não tem mais tanto medo de colo: ao contrário, ronrona feito um trator. Frajola tem o dobro do tamanho, apesar da mesma idade. Os dois esnobaram a cama que comprei e gostam das caixas, como prometem os memes. Ele brinca com a bolinha de papel e Julieta observa. Estrearam a caixinha de areia do apartamento com um xixi coletivo e no dia que a casa alagou porque deixei a janela aberta, ficaram escondidos juntos embaixo da cama, no meio do alagamento. Frajola já fez xixi na parede uma vez. Surtei. Depois pedi desculpas pela bronca e expliquei que não pode, porque dona de gato quando vê já tá falando com eles, como se fossem gente. Eles se escondem quando varro a casa e arregalam os olhos quando ligo o secador de cabelos. Outro dia, nos desesperamos com a fuga da Julieta e, quando vimos, estava embaixo do sofá. Todo dia, pelo menos uma vez, acho que a gata sumiu mas ela está só camuflada no tapete preto. Eles veneram a caixa onde escondi a ração. Eles têm apelidos. Jólis e Jubs. Ou Jubilubs. Ou Ju. Mas minha mãe não aprova esse último, em defesa da minha amiga Juliana. 








Lambeijos! 

terça-feira, 2 de abril de 2019

#o13dobloco5

Não, não da pra chamar de solidão. Ao contrário: sobram mãos dispostas a ajudar e agora nem tem mais um lado vazio no sofá.

Não dá pra chamar de aperto. Ao contrário: os 55m² são bem maiores que o quarto dividido, com guarda roupa, cama e barulho alheio.

Não dá pra chamar de improviso. Ao contrário: já tem chuveiro, box, cama boa, fogão, armários, mesa, sofá e até tapete. E apesar de ainda não ter pratos ou geladeira, o que não falta é jeito pra dar. 

Não dá pra chamar de bagunça. Embora seja também. 

Não dá pra chamar de silêncio. Há gatos que arranham caixas de papelão, derrubam o pote de água e perseguem um ao outro durante a madrugada. 

Mas existe sim: um silêncio que mora no meio da bagunça e uma ordem improvisada (e aperto todo dia cada um dos gatos)...

E logo eu que sempre desejei tudo pronto, me pego apreciando cada passo. Cada detalhe. Cada novidade. Cada conquista.






terça-feira, 12 de março de 2019

que horas são?

Houve o tempo de me preocupar com números. O salário baixo, o empréstimo debitando na conta, o aperto, a impossibilidade de pagar 50 mil de entrada. Tempo de esperar, acalmar, procurar outras possibilidades. Tempo de dar tudo errado pra poder dar certo. E então veio o momento de círculos perfeitos: a entrada pequena, o subsídio generoso, o FGTS necessário, um bom chá pra curar aquela azia... 

Houve tempo de me preocupar com papéis. Eram xerox e documentos e cláusulas e rubricas. Milhares delas. Fila, paciência. Não pode mexer no celular dentro do banco, senhora. Assina com a construtora. Assina com a imobiliária. Assina com a Caixa. Uma assinatura atrelada a outra. Se um não autoriza o outro não vende e ponto final. Paga taxa, paga corretagem, para sinal, paga seguro. Questiona venda casada. Liga mil vezes e não é atendida. Espera na fila. Perde tempo, perde dia de serviço pra conseguir um ressarcimento proporcional. Dinheiro que você nem tinha mas deu um jeito de pagar. 

Houve tempo de me preocupar com pisos e móveis e cores e estampas. Não era hora, mas eu precisava preencher meu cérebro com algo melhor que "esperar". Foi tempo de pesquisa, fita métrica e pantone. E dinheiro muito bem gasto. Eram tecidos e cerâmicas e tapetes felpudos.

Houve tempo de pensar em solidão, gatos e vinhos.

Houve tempo de comprar panelas. Acompanhar a flutuação do preço dos fogões de embutir. E adquirir facas e tábuas e copos e taças e potes de plástico e liquidificadores e aspiradores de pó e tal. Sendo as aquisições mais importantes o saca-rolhas de dez reais e a cama box queen size maravilhosa na promoção.

Houve tempo de querer pias e bancadas e chuveiros... e meus mil armários milimetricamente planejados. Tempo de me irritar com medidas e impossibilidades. Tempo me preocupar com futuros distantes e na reforma do quarto depois dos filhos e no apartamento pequeno demais pra família em crescimento. Tempo de virar a noite rabiscando móveis e paredes. Tempo de trena, lápis e caderno de desenho. Teve tempo de ir em loja e comprar madeira e metal. Tempo de ver a primeira delas ser cortada sob medida.

Houve um tempo de promessas. De datas, prazos e empolgação seguida de frustração. Setembro, novembro, dezembro, janeiro... A energia da empolgação foi acabando. Mas com diz a música "tristeza não tem fim" e a frustração só aumentando.

Março chegou e com ele vieram as chaves. Um monte delas. Barulhentas, umas contra as outras, em um chaveiro porcaria. Reais. Palpáveis. Olho pra elas e nada acontece além da boca se contorcer numa careta desdenhosa. Lembro de Clarice Falcão cantando "um relógio parado não existe, todo telefone quer tocar" e penso pra que raios servem chaves sem as portas que elas devem abrir.

Coloquei o vinho da comemoração na geladeira. vou esticar o tapete no chão e beber o vinho português na minha taça nova, ouvindo fado e me lamentando da demora, até sentir vontade de comemorar.

E foda-se. Cansei.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

longanimidade

substantivo feminino
  1. 1.
    virtude de se suportar com firmeza contrariedades em benefício de outrem; magnanimidade, generosidade.
  2. 2.
    POR EXTENSÃO
    paciência, resignação com que se suportam contrariedades, malogros, dificuldades etc.



Não sei se são os hormônios ou se é só decorrência da espera.
A cada minuto, mais se esgota a minha boa vontade.
Não tenho mais paciência nem quero ter.
Entrei na fase de ouvir Leoni, tamanha desilusão.

Coincidentemente, dei de cara com essa palavra esquisita cujo significado desconhecia: longanimidade, que parece ter a ver com a capacidade de aguentar firme. Ontem foi mais um dia assim. Com a cabeça pesada, o coração aflito, os pulmões espremidos numa caixa torácica muito apertada, sem conseguir o ar necessário pras células todas.

Platão deve estar rindo da minha cara agora mesmo. Balançando a cabeça pra cá e pra lá com um sorriso de pena, ciente de que esse meu sofrimento todo não resolve nada e nem acelera os processos. 

Certo também de que, quando em posse das chaves, elas não parecerão mais tão urgentes assim. 





segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

E é o fim daquele medo bobo

Todo dia tenho um pouco de medo de te perder. Um receio que da um apertão no peito e me faz pensar por uns momentos que talvez você me deixe outra vez. Acontece quando fico sem notícias ou sozinha por muito tempo. Talvez por isso mal te deixe dormir e queira te ver todos os dias.

Acho que ainda me surpreendo com a verdade. Acho que ainda duvido um pouquinho que eu mereça tanto...! No fundo, sei que sim, porque esse amor é recíproco. Mas meu lado apavorado e pessimista fica pensando por quanto tempo você amará a bailarina ansiosa com zumbido no ouvido.

Eu, no entanto, conhecedora das minhas próprias neuroses, tenho umas táticas infalíveis pra esquecer tudo isso. Me enfio no meu canto preferido: dentro do seu abraço. Chego de surpresa e olho sua expressão se transformar de felicidade ao me notar. Ouço você cantando pra mim, dizendo que está apaixonado ou com saudade. Resgato as declarações de amor e me derreto.

E vinte minutos com você tem o poder de salvar meu dia...! E de repente, já estou pensando em presentes de natal, móveis planejados e jantares a dois, três (ou, no futuro, quatro...).

Penso dia e noite em dividir a vida com você e torço pra que isso aconteça! São pensamentos como esse (tão simples como imaginar a compra do mês...) que tiram de mim o medo bobo. Pois quando estou com você sei que estou no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa.

E é como eu digo: quando seu lugar de paz não for um lugar (mas alguém) fique. Aproveite. Desfrute. E ame de volta com todas as suas forças.

"Cada dia tenho mais convicção sobre você..." e tenho mais convicção sobre nós!

Porque seus olhos brilham enquanto você caminha pra mim, no fim da dança.  
Porque você diz que vai pegar orçamento do box do banheiro e pega! 
Porque você me olha nos olhos e não tem pressa de ver outra coisa.
Porque você se preocupa comigo e meus zumbidos e ansiedades.
Porque você me faz rir, me faz acreditar, me faz mais serena. 

Você me ensinou que 'primeiro as primeiras coisas' e até agora não acredito que aprendi!! haha
Você me faz ser mais proativa, mais divertida, mais tranquila, mais grata...! 
Você deixa mais leve o peso do meu coração...



Neoqueav.