terça-feira, 22 de novembro de 2022

mesmo que pareça absurdo

Logo eu, uma bocuda de nascença, fui me silenciando ao longo dos anos. Ninguém acredita: afinal, eu falo muito. Mas o fato é que eu penso muito mais do que falo de fato. 

Repara bem no que eu não digo: há anos venho exercitando esse equilíbrio entre o ouvir e o falar. E pra mim, após tantas brigas, tantas confusões em que entrei por não conseguir fechar a boca, a assertividade na fala tem sido o objetivo de uma dura busca. Falar o que preciso, da forma correta, no momento preciso. Quer busca mais subjetiva?

Aí, na maior parte das vezes eu apenas calo. Guardo pra mim esse amontoado de palavras e deixo lá, empoeirando. Não é a toa que tô com o chakra da garganta entupido de tantos nódulos rs aí, volto pra busca: cantar, falar, me posicionar, discordar.

A minha criança interior se contorce a cada vez que eu discordo de alguém. A cada vez que digo: isso está errado; isso não é justo; não gostei do que você fez/falou. Porque em algum lugar da minha história eu aprendi que as pessoas se magoam e que 'eu não podia' fazer isso com elas. Uma insegurança e uma sensação de 'o que você está falando/mostrando não importa' se instaurou em algum lugar do meu coração em algum momento e, sem que eu percebesse, ficou. Então eu passei anos fazendo o que achava que as pessoas queriam que eu fizesse. Passei anos sem dizer não para eventos e relacionamentos que eu não queria tanto assim. Me coloquei em situações de liderança de projetos que, talvez, no fundo no fundo, eu nem quisesse liderar. Me expus publicamente, a troco de 331 votos de confiança - o meu, inclusive - porque, afinal de contas, tinham pedido pra que eu o fizesse.

Claro que cada uma dessas situações foi me ensinando. Aliás: claro que eu fui aprendendo com cada uma dessas situações (não vamos tirar meu mérito aqui - tem situações que ensinam e, mesmo assim, tem gente que não aprende!)

O fato é que, após anos, voltei a ser bocuda.

Passei por um outubro dificílimo de me calar. Mercúrio em escorpião ou não sei o quê, mas foi assim: falei, falei, falei, falei. Sem filtros, muitas vezes. Sem pesar as consequências, em algumas. Noutras, pesando e escolhendo falar, mesmo assim. 

Algumas situações nos pedem calmaria. Um voo leve de uma borboleta e um pouso suave, quase que imperceptível. Noutras, é necessário uma manada de búfalos selvagens, descontrolada, que passa por cima de tudo e todos pra sair incólume do outro lado. Eu ainda sigo aprendendo a diferenciar uma da outra. E buscando compreender que entre a borboleta e o búfalo existe uma infinidade de animais. 

Mas... 

Num momento em que me questionei se fiz bem em falar, veio a espiritualidade e me deu a resposta: fale o que você pensa, mesmo que pareça absurdo. Fale o que você acredita. Fale. "Muitas pessoas se aproximam de você apenas para ouvir o que você tem a dizer. E falando você ajuda essas pessoas  e você mesma" - foi o que me disseram.

Então, me acalmei. E tornei a falar.

E falei, falei, falei, falei... 

Sigo na busca, pois ela não acaba. Mas a principal parte dessa busca não tem mais a ver com agradar ou desagradar o outro, mas sim com ser honesta comigo mesma. Falar a minha verdade, ser fiel ao meu próprio caminho e meu próprio coração. 

No fim das contas, somos nós que nos aturaremos o resto da vida: com nossos arrependimentos por não ter falado, não ter feito, não ter ido embora, não ter colocado limites, não nos termos protegido ou cuidado. Então: foco.

Fale sua verdade. Mesmo que comece esse processo a dizendo apenas para você mesmo.







segunda-feira, 7 de junho de 2021

tic tac


O tic tac do relógio que comprei para a cozinha ecoa pela casa. É incrível como o silêncio amplifica as pequenas questões. Está tudo escuro, a não ser pela luz da tv, que há muito nao ligamos. Da sala, além do relógio, ouço as respirações daqueles que dormem, principalmente do marido e de um dos gatos.

Fecho os olhos e respiro fundo. O sono até vem. O cansaço me dói as pernas e braços e músculos vários. Mas quando fecho os olhos, fico esperando meu bebê acordar. Ele gosta de fazer isso quando estou prestes a pegar no sono. Só hoje, já acordou mais de cinco vezes  nas últimas três horas. Quem dorme, desse jeito? Se bem que acordar não é a palavra exata pra um bebe dormindo e sonhando e se debatendo e chorando que só acalma no colo, no peito, no cheiro de mãe. Na última, o ninei sentada, ele escorregando do meu peito para o meio das minhas pernas. Quase 70 cm de criança. Um bebê robusto, pesado, que me pesava o braco esquerdo. Ele mamou e dormiu. Antes de suspirar, dava sorrisinhos, acalmando sua expressao no sono. Uma imagem que fotografei com os olhos pra nunca esquecer...

Entre o tic tac do relógio e o ronco dos que dormem, sigo. Pensando na vida, nas contas, nas brigas, nos próximos capítulos. Tentando dormir. Tendo sede. Não conseguindo...

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Uma terça-feira qualquer


Acordamos, fiz café, conversamos, troquei o bebê, lavei o rosto dele, dei vitamina, limpei o nariz. Brincamos no chão, cantamos, tummy time. Chorou. Mamou de novo. Colo. Dormiu.

Tirei a carne do congelador, pus a roupa pra lavar. Pendurei os tapetes no sol. Dei banho nos três gatos, tomei banho. Limpei o sofá, dei aquela geral no banheiro.

Bebê acordou mas tá de boa. Pendurei as roupas no varal. Metade. Aí fui ver o bebê resmungando, com um shorts ainda na mão.



Voltei e terminei de pendurar. Peguei o bebê. Troquei o bebê, brincamos com a tartaruga e com o barulho do pacote de lenço umidecido vazio e rimos do vento.

Pus ele no berço, sob grande reclamação, pra por mais uma máquina de roupa pra bater rs voltei, amamentei. Cantamos a música da velha a fiar e do peixe vivo, fomos pra sala e coloquei ele na cadeirinha que tem o leão e o elefante que ele adora. Passei aspirador de pó na casa enquanto ele estava zen e fui pra cozinha temperar a carne, cortar e grelhar. Esquentei o arroz, me servi da salada de grão de bico de ontem. Neném chorou. Fiz meu prato e voltei. Parou de chorar. Comecei a almoçar. Dado momento, ele chorava me pedindo colo. Eu batucava com o garfo no prato e ele ria. Parava pra comer, ele chorava. E assim foi até eu conseguir terminar. Batuque, risada. Garfada, choro. Peguei no colo, andei pela casa, tirei o body pq achei que ele tava suado. Olhei a fralda e tava suja. Troquei a fralda, rimos juntos do tamanho da fralda anterior. Colo. Fui amamentar, o prato ficou no sofá. Ele mamou, riu de quando abanei ele com uma foto do meu casamento. Mamou, mamou e dormiu. Eu voltei pra sala. Recolhi o prato, pus na pia. Pensei em lavar louça, mas lembrei da outra leva de roupas lavadas. Estendi a roupa.

E agora? Louça ou café? Café!

Lembrei que era dia de pagar contas. Paguei quatro boletos e lembrei que tinha que baixar os informes de rendimentos pro imposto de renda. Fui pro computador. Liguei, abri as páginas dos bancos. Bebê acordou. Amamentei, bebê dormiu. Voltei pro computador, bebê acordou. Troquei a fralda, rimos do tamanho da fralda suja, peguei no colo, pus na cadeirinha. Enquanto baixava o primeiro PDF, ele chorou. Cantamos a música da feira, a música da ciranda dos bichos, mesmo assim ele chorou. Comecei a batucar na mesa e ele riu. E assim foi. Batuque, risada, mexe no computador, choro. Batuque, risada...

O choro aumentou copiosamente. Peguei no colo, larguei o computador, amamentei. Parou de chorar mas não dormiu. 

Abanei o gordinho, cantei a música dos dez indiozinhos... E aprendemos a contar até dez em inglês com o Planeta Boo (ele adora ver minha mão fazendo os números).

Vimos um vídeo no YouTube, fui beliscada por mãozinhas sem destreza e seguimos deitados. Mais um vídeo do YouTube e muitas gargalhadas.

E eu pisquei e meu bebê pegou o chocalho sozinho pela primeira vez e - novidade! - chacoalhou ele um montão, achando a maior graça. E eu filmei e babei. E enquanto uma mão brinca com o bebê (pq a brincadeira do chocalho já perdeu a graça) a outra responde o chat do banco.

Hora do banho. Esvazia a banheira, limpa, enche. Pega fralda, pega roupa, pega bebê, tira roupa do bebê. Banho. Shampoo, sabonete. De frente. De costas. Seca bebê. Ele não gosta. Veste o bebê, ele não gosta. Vê uma meleca na orelha, limpa. Bebê não gosta, chora. A paciência já não tá mais lá aquelas coisas. Coloco o bebê bravinho no berço, dou os brinquedos preferidos, ligo o mobile e vou fazer xixi porque pelo amor de Deus! Ainda são três horas.

Durante "o xixi", aproveito pra responder clientes e dar aquele olhada no grupo do whatsapp. Lembro da louça e dos informes de rendimento... Suspiro.

Bebê ficou tranquilo no berço e eu... Bom, eu achei a maior bola de pelo vomitada por um gato já vista na história desse apartamento. AFF. Da nem pra achar ruim, provavelmente a culpa é minha que não escovo os coitados.

Bebê chora. Dou corda no mobile mas não eh isso que ele quer. Adivinhem? Fui amamentar. Deitada no colchão dele, no chão, metade das pernas pra fora. Quem sabe ele dorme.

Fico pensando se saio do colchão quando ele dormir ou se tiro um cochilo também. Nem arrumei minha cama hoje, mas parece que um cochilo cairia bem...

Bebê dormiu. Mãe zumbi levanta. Mexi na planilha de vendas da loja, tentei pegar outro informe de rendimentos, não rolou, fiz umas contas e... Fui fazer outro café. Já são quinze pras quatro. Calma. Respira. Hahaha em sete minutos eu fiz café, tomei metade em silêncio e metade com o bebê chorando. Corri amamentar mais um pouco. Acho que faltou um golinho... mama, mama, mama.

Meia hora de mamar, vamos ver quantos minutos de sono.

Cinco! Uau! (Risos nervosos)

Mamou mais um pouco e dormiu. Decidi ficar grudadinha com ele pois percebi que não era fome a necessidade, era chamego. No meio do sono, diversas vezes ele fez bico e chorou meio dormindo meio acordando... Como se estivesse tendo um pesadelo. Acalmava ele com carinho e/ou leite até dormir de novo...

Quinze pras cinco.

Levantei muito delicadamente e fui pra sala e um gato correu se aninhar no meu colo. Passei algumas fases do meu jogo.

Minutos depois, bebê acorda, troquei ele e pus uma roupinha confortável, pq tempo virou e começou a ventar... Falei com meu pai ao telefone, levei as xícaras de café pra pia. Arrumei a cama. Sim, a essa hora. Bebê tá no berço brincando com as tartarugas. Tirei o lixo do quarto do bebê e recolhi os panos de chão do varal, porque pretendo lavar as fraldas de pano ainda hoje. Vamos ver...

Decidi não esperar até de noite. Já enxaguei as fraldas e pus tudo pra lavar, com as roupinhas que estavam entupindo o cesto também. Melhor, assim já fico livre.

Davi tá rindo sozinho e "conversando" com os gatinhos do móbile. Ouvi algumas gargalhadas e resmunguinhos, mas quando ele me viu parou na hora. Tão lindo!...

Fomos pra sala, cantamos com o leão e o elefante, ele fez xixi e vazou tudo. Troquei de novo, calça, body e fralda. Marido chegou. Conversamos, como todo dia. Bebê quis mamar. Mamou e dormiu. Partiu fazer janta então.

Puts, pia lotada de louça. Comecei a lavar e bebê acordou. Voltei dar mais mama. Claro que ele acordou quando lavava o segundo prato haha mas aí meu marido chegou e ficou com ele. Lavei louça, fiz janta. Jantamos, brincando com ele. Depois peguei no colo, dei mama. Nada de dormir. Vamos brincar então. Fomos no berço brincar com as tartarugas, papai trocou ele e ele deu várias gargalhadas.

Eu bem que ia lavar a louça da janta mas fui requisitada nas brincadeiras. Ficamos os três juntos até o Davi querer mamar pra dormir. Foram vários mama-dorme-acorda até dormir de vez. Normal. É sempre assim a noite e normalmente ele só dorme de vez perto das 22h30, 23h.

Já são 22h23. Quem sabe essa é a última mamada antes do sono pesado...

22h40 dormiu! Fui! Espero que seja "só" por hoje. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

com quantas gotas se faz um copinho de cachaça (de leite)?


Hoje completamos nosso primeiro mês de aleitamento materno exclusivo em livre demanda. Tão difícil quanto lindo, tão doloroso dar quanto não dar.

Depois das duas primeiras semanas, que foram de dúvida e dor, quis desistir - como acho que todas já quiseram em algum momento. Mas chorei porque queria, mas não queria.

Na próxima mamada, estava lá novamente.

E no dia seguinte o céu se abriu e as coisas começaram a ficar mais simples. Revisei meus estudos sobre pega correta, respirei fundo e me apoiei em toda a teoria (peito é fábrica, não estoque; leite materno é tudo que seu bebê precisa; livre demanda é importante...) e encontrei a paz que precisava.

Também na terceira semana, Davi passou a me olhar enquanto mama. Não sempre... Mas as vezes ele firma os olhos nos meus e aperta forte um dos meu dedos com a sua mãozinha - mas eu me derreto mesmo quando, já caindo no sono, de olhos revirados, ele sorri, com o peito ainda na boca, como que dizendo "estava uma delícia, mamãe, obrigado mais uma vez".

E a cada "obrigado mais uma vez", eu sorrio também e volto na próxima mamada, com todo o amor.

Não é uma escolha fácil, mas era a única que poderia fazer.

(...)

domingo, 24 de janeiro de 2021

Antes do princípio - do trabalho de parto

Relato de parto, parte 2: o pré-parto


Eu não estou aqui para ensinar pra ninguém nenhuma receita de bolo. Não estou aqui pra mostrar o segredo de um truque de mágica e nem pra comprovar com quantos paus se faz uma canoa. Esse é - assim como outros textos que vieram e que virão - apenas um relato da minha experiência pessoal porque tenho em mim essa necessidade de escrever...



Queria dividir que meu pré-parto começou há muitos anos, muito antes sequer de eu conhecer meu marido e pai do meu bebê. 

Quem me conhece sabe (mas vai que o blog ganha novos leitores, né?) que eu sou jornalista e trabalho desde 2013 como assessora de comunicação da Prefeitura de Cabreúva. Fiquei até 2015 como assessora direta da Secretaria da Educação. Lá, entre as creches, um programa muito interessante era posto em prática: o Primeiríssima Infância (que depois passou a ser política pública estadual e se chamar São Paulo pela Primeiríssima Infância - o SPPI). Esse programa tem o objetivo de cuidar das crianças dos 0 aos 3 anos, época do ápice do desenvolvimento. Pra cuidar desde os "zero", o programa inclui um olhar atento as gestantes e puérperas (essa pessoa recém parida, recém mãe, recém chegada a esse mundo todo novo). 

Em 2015, logo antes da Santa Casa ser reinaugurada (depois de uma brutal reforma), eu passei a assessorar a Saúde. Quando comecei a escrever sobre saúde, não tinha nenhum encanto especial pela pasta ou pelo tema. Com o tempo, coisas foram acontecendo, projetos foram sendo implantados e, aos poucos, fui aprendendo e me apaixonando.

Continuava responsável por acompanhar os acontecimentos do SPPI, e por trabalhar com a Saúde eu me aproximei mais das ações em prol dos "zero anos": parto, pré-natal, pós-parto, amamentação, entre outros, passaram a ser temas recorrentes das minhas matérias e entrevistas,

No meio de 2015 - e graças a esse programa - a Santa Casa mudou seu protocolo de parto, contratando enfermeiras obstetras para serem as condutoras dos partos de risco habitual e inaugurando a sala PPP (a sala foi chamada carinhosamente de Quarto Semente - onde a parturiente vivia seu trabalho de parto, o parto em si e os primeiros momentos do pós parto, com atendimento humanizado, menos intervenções médicas, corte do cordão umbilical tardio, amamentação na primeira hora de vida e diversos outros "conceitos" "inovadores" para o SUS). A sala, em si, não tinha nada demais. Uma maca, um berço aquecido, chuveiro, umas barras presas na parede, uma banqueta, uma bola de pilates e era isso. A mudança, afinal, não seria feita com coisas e nem com dinheiro. Foram elas, as enfermeiras, que transformaram a realidade. 

E eu passei a frequentar semanalmente a Santa Casa. Palestras, cursos, visitas guiadas, encontros de gestantes e famílias grávidas, reuniões de planejamento, eventos como a Semana Mundial do Aleitamento Materno: foram centenas de momentos que foram compondo o meu pré-parto (e nessa época eu nem sabia que queria ter um filho...).

Lá, três enfermeiras se tornaram minhas "amigas secretas" - secretas porque eu admirava tanto o trabalho delas que comecei a considerá-las minhas amigas, pessoas tão queridas e de quem eu adorava estar perto, mas acho que só eu sabia disso. Talvez, pra elas eu fosse apenas a jornalista da prefeitura, uma colega de trabalho, talvez, mas eu as tinha como minhas amigas, tamanha a alegria de ouvi-las falarem do parto humanizado. Eu era feliz nas minhas pautas da Santa Casa. Eu me divertia, admirava aquela equipe, seus gestores, as pacientes... E saía sempre mais encantada do que havia entrado. 

Para divulgar o trabalho que estava sendo realizado na Santa Casa, eu tive a oportunidade de presenciar quatro nascimentos, para filmar e fotografar: dois partos normais e dois partos cesárea. Lembro até hoje a sensação do primeiro deles. Um parto normal a jato, um acompanhante pra lá de presente, uma mulher pra lá da partolândia (lembro com clareza do seu olhar que me atravessava sem ver, imersa que estava em si e no seu momento), que trouxe sua bebê ao mundo de uma forma linda, forte, verticalizada, uma enfermeira obstetra queridíssima, que falava baixo, dava força e orientações e respeitava o tempo daquela família.

Aquilo me marcou muito. Foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Ver a vida chegar, ver uma família nascer.

A primeira cesárea também me marcou. Lembro do arrepio que eu tive com a anestesia, com o cheiro de carne queimada... A moça estava ótima e feliz mas eu me senti mal. Foi diferente do outro parto e lembro de te pensado, ainda dentro do centro cirúrgico: "se Deus quiser esse será o mais perto que eu chego de uma cesárea" (tenho medo de cirurgias, podem me julgar rsrs).

E ali, eu decidi minha via de parto! Dali pra frente, li muito, pesquisei muito, vi documentários... Achava que queria ser doula. Claro que não, só queria ser mãe. Mas eu teimava com o meu terapeuta e seguia o baile da auto ilusão, até porque um bebê não fazia parte do meu cronograma (sim, eu tinha um cronograma a cumprir antes do bebê e ele passava necessariamente pelos itens apartamento e marido - pra mim sempre foi inconcebível fazer de outra maneira). 

Eu usava do jornalismo como desculpa pra saber das coisas e sempre tive uma paz muito grande com a minha série de decisões inquebráveis (leia mais sobre minha história com a amamentação no próximo relato rs).

Em 2017, o carnaval de Cabreúva foi cancelado por questões financeiras e parte da verba foi destinada a a uma reforma da Santa Casa - ajustes internos e a construção de um bloco administrativo, que liberou uma sala grande dentro da maternidade, onde foi construído o novo Quarto Semente: maior, mais equipado e, dessa vez, com uma bela banheira.

Eu estava lá durante a reforma. Acompanhei, fotografei, escrevi. Estava lá quando a banheira foi instalada, Estava lá vendo aquelas pessoas incríveis encantadas com aquela estrutura (coisa que nem convênio tem, quem dirá o SUS...). Estava lá quando a sala foi inaugurada, em 2018, com toda pompa, com cobertura da TV regional e muita alegria. Estava lá quando as parteiras (as enfermeiras obstetras maravilhosas) receberam treinamento para conduzir partos na água (com uma professora para lá de maravilhosa, vindo direto da tão admirada Casa Ângela, em São Paulo, referencia em partos normais humanizados...). Aquele quarto novo, aquela banheira, aquelas pessoas... Significam muito pra mim.

Estava lá, quando nasceu o milésimo bebê após a reinauguração! E também quando a Santa Casa e seu projeto de humanização do parto foi reconhecido como uma das 10 melhores práticas do Estado com relação ao Programa São Paulo Pela Primeiríssima Infância. Estava na inscrição, estava na gravação do vídeo de inscrição, estava na premiação. Aquele prêmio, aquela vitória, aquele reconhecimento: era um pouco meu também. Me sentia tão parte daquilo que comecei a sonhar com o meu próprio parto.

Quando engravidei, de fato, estávamos (estamos ainda) na pandemia. Isso tirou de mim (e das outras grávidas cabreuvanas) toda e qualquer oportunidade de se sentar pra ouvir. Todos os eventos, encontros, palestras, rodas de conversas e semanas maravilhosas foram canceladas. A Saúde estava (está) focada em conter o vírus. Eu, isolada dentro de casa sem nem uma amiga grávida pra me fazer companhia virtual. 

Isso me encheu de tristeza porque em cada um desses eventos eu imaginei como seria quando chegasse a minha vez. Me imaginei sentada entre elas, as grávidas, ao invés de estar em pé num canto com uma câmera e um bloquinho. Ostentaria minha barriga pra lá e para cá e reforçaria todo o conhecimento já adquirido.

(Também passei anos desejando ter as fotografias do meu parto. Sim, já que eu estive lá pra fotografar o de outras mulheres. Também não foi permitido por causa da pandemia. Pena...)

Mesmo sem ter a chance de estar "enquanto grávida" nesses eventos e encontros, sei que toda a bagagem adquirida antes mesmo de querer engravidar foi o que me deu paz com a minha escolha pelo parto normal e com a equipe daquela instituição. 

Ter um vínculo afetivo com a Santa Casa (e muita informação) foi um ponto pra lá de importante do meu parto. Mesmo não conhecendo a equipe que estava me atendendo, especificamente, eu conhecia o hospital, seus protocolos, o "jeito de pensar" da instituição não só sobre partos mas sobre amamentação, humanização, entre outros. Confiar na maternidade me garantiu paz no coração pra focar em mim e no meu corpo, sem me preocupar com intervenções, com desrespeito, com violência obstétrica... 

Sei que é surreal pensar que "me preparei" por mais de 5 anos para o meu parto. Sim, é mesmo. Na vida real, temos sete ou oito meses pra absorver a informação que precisamos - e é TANTA COISA pra saber - até o dia de parir. Mas meu pré-parto foi assim. Longo, complexo, cheio de histórias e emoções. 

Talvez por isso tenha passado minha gravidez toda tão tranquila. 

Não fui atrás de outro hospital e nem me preocupei com a possibilidade de não dar certo o meu plano/sonho do parto normal. E no fim, deu mesmo tudo certo. Talvez por eu ter confiado demais. Talvez porque meu inconsciente teve tempo de se preparar. Talvez porque o parto normal dá certo independentemente dos cinco anos de conteúdo acumulado - só porque a natureza é sábia e ponto final. 

Só sei que a Santa Casa sempre fez parte do meu desejo pela maternidade - e foi tudo exatamente como eu sonhei. Eu vivi na pele a realidade que tanto divulguei nos meus textos, vídeos e fotos. E muito me alegrou ver que só vendi verdades em cada palavra e cada click.





quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

a tal vida real


A tal vida real. O prato de comida já esfriou, você nem sabe que horas são. O chorinho só passa no colo. Quer dormir, mas não consegue. Ele, na posição preferida. Você, morrendo de dor nas costas: dez quilos a mais, ainda de pijama. Anda pra lá e pra cá. Nada. Choro. Toma o peito. Não quer. Choro. Anda pra lá e pra cá. O choro passa, mas os olhos estralados denunciam que não está dando certo. Você recorre ao secador de cabelo e seu ruído branco de que tanto falam por aí. E reza. Reza pra cria dormir, porque se ela não dorme agora, a coisa só vai piorando. Os hormônios não sintetizam, a pega só peito não acontece, o stress aumenta - dele e seu. O secador assusta no primeiro momento, mas segundos depois você já sente o bebê relaxar. Menos a mão, que aperta firmemente seu sutiã, como quem diz "é aqui que quero ficar, mamãe, não me põe no bercinho quando eu dormir". Até que, enfim, o bebê dorme. Até que, enfim, sua expressão suaviza. Sutilmente, como se o mundo dependesse da sua delicadeza, você o coloca no berço. Em cinco minutos, ele acorda. 

E vida que segue.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ele, o parto

Relato de parto - parte 1




De tanto ouvir Anunciação na barriga, Davi veio ao mundo em uma manhã de domingo.

Os sinais começaram tão cedo quanto a ansiedade. Dez dias antes, fui pra Santa Casa de Cabreúva com cólicas pra ser avaliada. Eram quaaaaase 2cm de dilatação, nem perto da brincadeira começar - e fui embora frustrada. No dia seguinte a frustração deu lugar a uma paz pela informação: ainda não era hora, mas tá chegando. Ok. Respira e não pira. Fui viver a vida, já de olho na data provável de parto - 24 de dezembro. Nesse dia, as contrações e cólicas vinham com um certo ritmo e fiquei empolgada achando que era dia - mas não era. 

Conversei com uma amiga enfermeira obstetra (@sementematerna) e ela me orientou a passar um longo tempo no chuveiro e observar se as contrações aumentavam ou diminuíam. Fui, feliz da vida, mas o banho quente fez as dores passarem, assim como meus motivos pra procurar a maternidade. "Amanhã, quem sabe", pensei e fui dormir. Dia 25 nada, 26 nada. 

Vinte e seis foi um sábado normal: fizemos faxina, almoço, dancei, dei risada, vimos série na Netflix até tarde. Em um dos episódios, passado da meia noite, comecei a marcar o tempo das dores, sem alarde. Não queria me empolgar de novo pra elas passarem e não ser hora ainda, mas dentro de mim algo dizia que era...

Meia noite e meia e desisti de ver série, as dores vinham com intervalos de 3 minutos - ótimo sinal! Falei pro meu marido (@gui_leo_davi) que se continuasse assim por mais meia hora, totalizando uma hora cravada, iríamos pra maternidade pra eu poder ser avaliada. 

Essa foto na varanda foi mais ou menos nessa hora. Aguentei até uma e meia, tomei um banho e falei: "e aí tá preparado pra ter um neném?!", mas acho que na verdade e estava perguntando pra mim, mesmo. 

Chegamos na Santa Casa por volta das 2h mas estava apenas com 2cm de dilatação, o que quase me matou de frustração. Como assim, nem um cm de dilatação a mais??? Que saco! Mesmo assim, fiquei em observação: fiz cardiotocografia, tomei Buscopan e nada da dor ir embora. A enfermeira obstetra @adriana_piinheiiro me orientou a ficar um bom tempo na bola de Pilates no chuveiro. Fui pro Quarto Semente com o coração cheio (em outro relato especifico tudo o que esse quarto - esse projeto - representa pra mim). 

Sob a água quente e com a companhia indispensável do meu marido, vi as dores aumentarem. A cada "onda" elas vinham mais intensas. Eu já não estava marcando o tempo, só sabia que doía. E com o tempo, fui perdendo a pose e as posições. Doía sentada, eu me levantava. Doía de pé, sentava de novo. Água nas costas, água na barriga, mãos agarradas nas barras na parede. Lembrava com uma constância incrível de uma das entrevistadas do documentário A Dor do Parto. Ela dizia que quando tinha contrações, fechava os olhos e contava: um, dois, três... até passar. Eu lembrava dessa moça e tentava contar, mas me perdia em todas as contagens. Deixei pra lá e continuei meu mantra de ais e uis, tentando respirar o máximo possível.

Num certo ponto, tudo o que eu queria era deitar um pouco, minha lombar doía bastante. Perguntei a hora pro Guilherme, ele respondeu que eram quatro e quinze. Fiquei em choque. Como assim já faz duas horas que estou aqui? Pedi pra que ele chamasse a enfermeira, pra perguntar se eu podia me deitar. As 4h30 ela me reavaliou e fui internada com 5 cm de dilatação. Uma evolução e tanto pra uma primigesta, até eu sabia disso. Um misto de alegria e medo, coberto de uma dose de realidade de que agora era hora e não dava pra voltar atrás.

Nessa hora, passei mal. Não conseguia mais falar e, quando tentei, vomitei por todo o banheiro todas as ânsias que não tive durante a gravidez. Não foi uma cena bonita. Mesmo sabendo que o parto é um evento cheio de secreções, a gente - no fundo - quer que seja tudo limpinho. Da vergonha. Da medo. Dói. Suja. Mas é assim. 

Daí pra frente, fiz caminhada no Solário, sob a luz da lua e a brisa de verão. Cada contração que me parava, me punha caretas na cara, me fazia pensar que estava perto. Aquele momento tão esperado, desde antes de engravidar. A hora de parir, de por no mundo. Que medo. 

Não sei que horas eram, mas atingi a dilatação total. "A partir de agora pode fazer força, quando sentir vontade" - me disseram. "Não quero", pensei. "Quero, mas não quero. Vai doer. Vai rasgar. Vou me machucar, não quero" - eram pensamentos recorrentes. Eu sabia que a hora da covardia chegava. Já presenciei ela chegando pra duas mulheres cujos partos eu assisti e li relatos demais pra achar que comigo seria diferente. Senti medo durante todo o trabalho de parto. Pensei na palavra cesárea o tempo todo. Mesmo assim, havia uma voz na minha cabeça - a minha voz - pedindo calma e me dizendo que eu sabia que tudo isso ia acontecer, que eu sabia como tudo isso ia acontecer e que eu havia feito a minha escolha com consciência e clareza. "Calma, respira, que vai dar tudo certo."

Cada método não farmacológico de alívio da dor foi me salvando de desistir (não que fosse uma opção real, mas na minha cabeça até que era). Banqueta, rebozo, banheira. Lembro também de mãos fazendo massagens com um óleo que esquentava, bem na minha lombar - não sei se eram do meu marido ou da enfermeira porque nessa altura do campeonato eu mal ficava de olhos abertos, tentando ao máximo respirar e me concentrar no meu corpo. Lembro da voz da enfermeira, das mãos do meu marido, apertadas pelas minhas. Lembro dele encostar o rosto no meu, falando perto do meu ouvido palavras de amor e incentivo. 

Lembro que me foi dada a escolha: poderia ir pra banheira pra aliviar a dor, mas talvez a água retardasse o trabalho de parto. Ou podia continuar na banqueta e ir para o expulsivo. Escolhi a banheira. Eu vi ela chegar, ser instalada, inaugurada, testada, vi enfermeiras recebendo treinamento sobre parto na água, escrevi sobre ela e tirei muitas fotos pra não querer estar lá. Sempre quis. Sempre sonhei. Até achei que meu bebê poderia nascer lá. A água, que sempre foi minha amiga, me abraçava e acalmava. Me agarrava no meu marido e o apertava, consciente de que ele devia estar desconfortável com os apertos mas cansada demais pra falar qualquer coisa. Aquela banheira resgatou um pouco da minha energia e calma. Eu estava com medo do expulsivo e uma parte minha quis adiar aquele momento. 

Na água, minha bolsa rompeu naturalmente. Era a hora de fazer força e eu tinha medo. Mas também queria que ele nascesse. Queria poder descansar. Estava sem dormir e não sabia que horas eram. Queria parar um pouco mas sabia que não dava. Voltamos pra banqueta pra por o bebê no mundo e eu demorei pra entender onde colocar a força. Tinha os olhos fechados o tempo todo, ouvia a enfermeira e meu marido, ouvia outras pessoas no quarto - médicos e outros profissionais aguardando o bebê nascer.

Precisei de algumas longas forças pra conseguir trazer meu filho. Eu consigo lembrar claramente - uma lembrança sensorial - da sensação dele passando e acabando com toda a dor, do corpo escorregando depois da cabeça, mas a lembrança da dor anterior é maior - talvez por isso muito se fale sobre a dor do parto e muito pouco sobre o alívio que ele traz. Pari Davi sentada na banqueta, abraçada pelo meu marido.

Assim que veio ao mundo, ele foi dado pra mim. 

Davi nasceu as 6h38, na Santa Casa de Cabreúva (SUS) num parto normal humanizado sem intervenções. Nasceu com 2,920 kg e 48 cm, amparado pela enfermeira obstetra plantonista.

Quando ela me entregou o bebê, vi que ele estava molenga e não chorava. A enfermeira me disse com toda a calma "respira, que ele está com o cordão umbilical ainda e tá tudo bem. Respira". Eu percebi meu marido tenso com a cena, mas não consegui falar nada. Estava ofegante, coração acelerado. Sentia meus olhos apenas semi abertos, mas agora via tudo, entendia tudo. Havia saído da partolândia e estava apenas me acostumando com a claridade. 

Como já tinha visto alguns partos fiquei tranquila com o corre corre que se seguiu, apesar de alerta. Aquela equipe sempre teve toda a minha confiança. O cordão foi cortado rapidamente e o bebê levado ao pediatra, ali, do meu lado. Eu segui no chão, na banqueta, abraçada pelo marido e assistida pela enfermeira, que cuidadosamente, como quem tece algo numa lã muito delicada, me ajudava a parir a placenta. O procedimento foi sutil e totalmente indolor (na verdade não sei se normalmente isso dói ou não, mas vi uma certa poesia no movimento de enrolar o cordão em câmera lenta e ir puxando a placenta centímetro por centímetro. Ela tinha um rosto calmo, concentrado, mas em paz. E quando olhei pra ela e pra placenta e entendi que tinha realmente - finalmente - parido meu filho, fiquei em paz também). 

Enquanto isso, a equipe cuidou do bebê, que nasceu cansadinho pela demora do expulsivo. Ele chorou, o pediatra nos acalmou, tudo estava bem. 

Eu fui sendo avaliada e cuidada, o bebê também, mas todo esse acaso não permitiu que ele ficasse comigo nesses primeiros momentos, nem que mamasse na primeira hora. Meu marido também não pode cortar o cordão umbilical, mas tudo ficou bem e era isso que importava.

Tive uma laceração de 1 grau e precisei levar um ponto. Da banqueta, me levantei para ir até a maca e assustei com o sangue escorrendo por entre as pernas. Um sangramento normal e esperado no pós parto imediato, mas eu assustei mesmo assim. Enquanto cuidavam de mim, meu marido babava no nosso bebê. Vi seus olhos brilhando, sorrindo pra mim e pro bebê. Esse momento foi mágico e eu fiquei em paz.


Nos minutos seguintes, carreguei um pouco o bebê, ainda deitada. Logo em seguida, fui sozinha tomar um banho - sozinha porque não havia necessidade de acompanhamento e não por desleixo do hospital. Estava bem, alerta, sem dores. Tomei meu banho enquanto preparavam o quarto pra gente e meu marido ninava nosso filho. Fomos os três para o alojamento, onde ficamos juntos até a alta hospitalar, 36 horas depois. 

Na minha mente, apenas um pensamento: "caraca, eu consegui. Eu achei que não conseguiria, mas eu consegui."

Eu pari. Ele nasceu. 
"Deu certo."

Quem ler esse relato cheio de medo e dor, pode pensar que a experiência foi, de alguma maneira, negativa. O medo não é nosso inimigo, nem tampouco a dor. Eu sei, parece coisa de budista, parece conversa fiada. 

Digo sem sombra de dúvida que algumas coisas me salvaram de cair no penhasco onde o medo passa a ser descrença, pânico, desistência:

- A confiança nos protocolos da humanização implantados firmemente no hospital que me atendia; 

- A confiança de que, apesar do medo e da dor, meu corpo foi divinamente projetado para esse momento que é, por mais que a gente tente negar, fisiológico, natural;

- A tranquilidade de ter comigo em todos os segundos uma pessoa da minha confiança, pronta pra me amparar, me cuidar, me proteger e me dizer o que eu precisava ouvir. Alguém que passou meses (muitos antes até de eu engravidar) me ouvindo falar sobre humanização, fisiologia do parto, posições pra parir, intervenções desnecessárias, métodos de alívio da dor e jeitos de me ajudar nesse momento. Alguém que se dispôs a ver documentários e muitos vídeos de gente parindo por aí. 

Esses três, juntos, foram os responsáveis por me permitir fechar os olhos, olhar pra dentro, me conectar com o que estava acontecendo com o meu corpo, minha mente e meu coração naquelas horas e viver, de fato, o parto. 

O parto normal, o parto humanizado, o parto rápido, o parto sem intervenções, o parto com final feliz. O parto em que eu não era a fotógrafa, a repórter, mas a mulher. A leoa. A mãe. O parto tão desejado, tão almejado. Pro qual eu estudei e me preparei e no qual me vi muito antes desse momento chegar. 

Todo esse "preparo psicológico" me conduziu pra esse momento. Pra essa alegria dolorida e intensa. Pra essa conquista. Essa coisa que eu fiz, porque fui mulher, porque fui forte, porque fui força e fortaleza. Porque fui natureza e permiti que natureza fosse, em mim. 

E assim, me fiz mãe. E esse olhar fez tudo valer a pena.