sexta-feira, 27 de novembro de 2020

ela, a barriga

Primeiro, ela demora pra aparecer. Depois, quando aparece, é toda tímida e faz a gente parecer que acabou de sair de um rodízio japonês. Depois os botões começam a não fechar e ela surge de vez, toda pomposa, cada vez mais redonda. E quando você acostuma com ela, como se sempre tivesse sido assim, vê as fotos de umas semanas atrás e leva um susto: meu deus, como cresceu!!

Com o tempo, os chutes e cambalhotas são sentidos. Primeiro, só por nós, mulheres. Depois, os papais entram na jogada e começam a sentir também, conforme ficam mais fortes. Chega uma hora que a cada mexida lembra um camelo transverso (ou um alienígena tentando sair) e dá até pra filmar e mostrar pras pessoas. 

No terceiro trimestre, algo começa a enroscar nas costelas. Os soluços começam a ficar irritantes, porque são tão fortes... Levantar da cama já não era fácil e agora é uma aventura. 

Ela começa a pesar. Olhar pro chão e não ver os pés é uma novidade divertida. Falar "com a barriga" já não é algo esquisito (meses de prática + as respostas que vem em forma de chutes e pulos e giros, do carinha lá de dentro, ajudam muito).

E vai chegando a hora de me despedir dessa barriga redonda. É, estamos no nosso último mês. Claro, que o próximo encontro será inigualável, incomparável. Junto com a expectativa por ele, vem a saudade dela. Da barriga. Dessa introspecção. Dessa coisa só nossa. Das coisas que só a gente sabe e sente e divide. De te ter tão pertinho, tão protegido, tão confortável! Do nosso silêncio... 

Mas o tempo ruge, a Sapucaí é grande e os dias hão de passar. E você vai embora e vou trazer meu bebezinho. E lembrarei sempre com muito carinho dos nossos nove meses. 

#babyrosadearruda

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Amanhã é 23



Hoje, eu me deitei para dormir cedo, como tenho feito nós últimos meses: uma fresta da janela aberta, um gato ao pé da cama, meu marido ao meu lado. Dessa vez, ele dormiu profunda e rapidamente com a mão sobre a minha barriga. Bem ali, onde ele tocava, senti nosso bebê chutar de dentro do útero. E eu sorri no escuro com essa cena. 

Pensei nesse ano maluco, nesse ciclo que se encerra em meio a uma pandemia, que tanto faz a gente lembrar dos problemas, das dificuldades, das solidões, dos medos... Mas lembrei, principalmente, que foi nesse ciclo que realizei dois grandes sonhos: me casei (de véu e grinalda, lua de mel, chuva de bolhas de sabão e tudo depois) e engravidei. 

Pensei na lua de mel, na dança, no meu emprego e saúde, nas amizades cada vez mais seletas mas cada vez mais poderosas. Pensei no quanto eu me aproximei da minha família nesse dois mil e vinte. Pensei no prazer e na segurança que esse lar me oferece. Um lar cheio de gatos e móveis e amor. Um lar cheio de sonhos concretizados, cheio de risadas e outros sonhos que ainda vão nascer. E sorri no escuro com cada um desses pensamentos. 

Esse ano, a comemoração está sendo assim: eu, meu marido, meus gatos, meu neném chutador, um delivery ou outro, caixas de Bis, pijamas e os olhos brilhando em direção ao futuro que se anuncia. E acho que nunca estive antes tão feliz, tão em paz, com o meu aniversário, com meu ano, com o fim e o começo de ciclos tão importantes. 

É, 27, você foi demais! Obrigada, Deus, obrigada, Universo. 28: só vem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O segundo foi que foi


Difícil essa coisa de contar semanas. Primeiro porque parece que elas não passam nunca. Os meses voam, mas as semanas... se arrastam! Depois porque as inúmeras tabelas que tentam "converter" isso em meses ou - pior - trimestres (!!!) são todas diferentes e contraditórias. Mas, mesmo considerando a mais pessimista e enrolada das tabelas: passamos. O segundo trimestre foi-se.

Hoje, começo a vigésima oitava semana. O que significa que estamos no sétimo mês de gestação e  daqui 9 semanas (quando completar 37), a gestação estará "à termo", ou seja: a partir daí qualquer hora é hora, basta o bebê querer nascer. Eu, ansiosa que sou, nem fico me falando muito isso não. A conta é sempre até as 40 semanas: faltam 12! 

FALTAM DOZE SEMANAS PARA O NATAL, MEU POVO! (Sim!)

No segundo trimestre o medo de abortar foi embora. O medo de enjoar foi embora (embora tenha rolado uma ou outra azia, mil xixis por noite e, de vez em quando, até insônia). A barriga estranha que parecia só sedentarismo foi embora. A coisa foi crescendo e arredondando e um dia eu acordei e me deparei com uma barriga de grávida. Uma inquestionável barriga de grávida. Que delícia. 

Já desisti de fechar as calças... Fico bem irritada quando preciso me vestir e preciso trocar de roupa várias e várias vezes porque as coisas não ficam mais tão bonitas ou confortáveis. É bem chatinho... Mas, vivo basicamente de pijamas, então, vida que segue. Enquanto isso, lavar e dobrar roupinhas de bebê virou uma espécie de hobby. Depois da crise do "ai meu Deus, eu não fiz nada ainda", chegou o berço, a cômoda passou a abrigar roupinhas delicadamente lavadas e dobradas e organizadas e separadas por categoria (#luaemvirgem), o quarto já tem quadros e pelúcias e sabonetinhos de bebê e sapatinhos e um milhão de fraldas de boca e toalhas de banho e toda a sorte de coisas bordadas, personalizadas, com crochê e fita - e, juro, tem mais coisas pra chegar, porque aparentemente essa criança será a mais mimada da face da terra.

Ainda faltam, sim, algumas coisas pra serem providenciadas. Coisas que, as vezes, as contas do mês não permitem que você resolva logo. Mas dá tempo e não estou mais agoniada com o tempo que ruge. 


O segundo também foi de muito mato. Espinafre e abóbora e vitaminas de mamão com iogurte e  frutas no café da manhã e tudo o mais. Nunca antes um pacote de batata palha durou tanto nessa casa, juro. Mas essa semana, confesso, eu tô tão de saco cheio da cozinha, que não consigo mal entrar lá. 

Também teve muito mais choro. De amor, de alegria, de raiva, de solidão. Com comercial de maquiagem, com vídeo sobre educação de crianças, com basicamente qualquer coisa. É um misto de estar grávida com estar em distanciamento social. Mar de Hormônios na Praia de Sozinha o Dia Inteiro. É bem difícil. E tem dia que tá suave. Vai entender...


Teve muito chute. Que estranho e que gostoso é sentir um bebê mexendo dentro da sua barriga. Sabe nos desenhos animados quando as barrigas ondulam, pra demonstrar fome? É exatamente assim, depois de algumas semanas! O bebê encosta em tecidos que a gente não costuma sentir. A história deles sapatearem nas bexigas, é real. E dá pra sentir e  é imediata a vontade de fazer xixi, é divertidíssimo, apesar de ser a milésima vez que vou ao banheiro na última meia hora.... 

Ah e teve um susto também, quando, um dia desses, subi no banquinho pra pegar o liquidificador no armário e aquela coisa virou e me esborrachei de costas no chão. A bunda deu uma amortecida na queda, mas a cabeça também bateu. Fiquei deitada no chão, esperando a adrenalina baixar - meu coração estava disparado - e tentando entender o que tinha, de fato acontecido. Comecei a chorar e respirei fundo pra me acalmar. Esperei e dor nenhuma veio. Alisei a barriga, o neném chutou. Pensei: "tá tudo bem" e levantei devagar. Desisti do suco que ia tomar e fui pro sofá, ver se ia sentir alguma coisa estranha. A bunda doeu um pouco e de resto, ficou tudo bem. Levei uma bronca de um marido bem bravinho - como se eu tivesse outra opção a não ser subir no banco pra pegar coisas no alto - e agora toda vez que faço isso, o faço com atenção e medo redobrados. 

Demorou, mas passou. Foi que foi, que nem vi. Cada dia, a sensação é diferente e estranho estar num momento tão... Libriano rss

Que venham as próximas semanas, de crescimento, de ansiedade, de emoções à flor da pele. Que nem o inferno astral tire o brilho desses dias tão únicos. 

 E que o umbigo demore pra saltar. Amém.



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Mas quem é que nunca se sentiu assim?

Ando tão à flor da pele, que qualquer inseto na varanda me faz chorar...


Até pra quem tem companhia, gestar é um processo solitário pra porra.
E gestar na pandemia é a própria cela solitária.

E mesmo eu, com toda a terapia, já entendo quem diz que grávida tem medo de tudo. Mesmo assim, sigo escolhendo confiar na natureza do meu corpo pra cuidar de tudo. 

Ao longo da gestação, já caí - literalmente - três vezes e foram momentos bem assustadores. Cada um com a sua intensidade. Mas nada é tão assustador quanto aquelas lágrimas que sobem da garganta, ardem o nariz e escorrem desavergonhadas e mudas. Mudas porque não falo. Não sei que dificuldade é essa de dizer o porquê choro. Já tá chorando mesmo, desgraça, se fosse pra disfarçar, que engolisse as lágrimas, como a humanidade vem fazendo há milênios.

E aí, porque não falo, a garganta arde e se aperta. 

Me sinto só. 

Só, com a torneira que não funciona, com a bagunça que não acaba, com a sujeira no chão e a pia cheia. Me sinto só com os chutes de dentro pra fora, com a grana que não chega no fim do mês. Me sinto só com a comida por fazer, com a falta de ar sob a máscara, em ser a única sem cerveja no almoço de domingo. Me sinto só. Em não me encontrar nas conversas dos homens sobre futebol e nem no futrico feminino lá na sala. Me sinto só no movimento de estar junto. Em tantos momentos que já nem sei se a coisa é assim mesmo ou se estou exagerando por causa dos hormônios. Me sinto só.

Só no sofá. Só na insônia de madrugada. Só na preocupação.

Parece que aos poucos a mulher vai ficando mais e mais opaca, mais e mais transparente e invisível. Talvez pra dar lugar à mãe. Imagino que o processo pra ambas coexistirem demore a acontecer... Não queria. Acho que a mãe se sentirá só sem a mulher.

Me sinto só. Me sinto infantil diante das minhas tantas necessidades emocionais. Diante de tantas demonstrações que espero receber. Me sinto só por estar fisicamente bem e não poder me vangloriar mas, também, não poder reclamar. Me sinto só. 

Como se ninguém entendesse o quanto de coisas acontecem sob um corpo grávido. Parece, pra quem olha de fora, que estou apenas grávida. Algo mais natural impossível, certo? Mas, definitivamente, esse processo visível vem acompanhado por uma porção de outros, cada vez mais intensos. 

E nem os gatos ligam mais pra mim, habituados que estão com a minha constante presença em casa durante a pandemia. E ao redor de casa, tudo é silêncio. Crianças não gritam, mães não falam ao telefone, furadeiras cansaram de trabalhar. O silêncio é absurdo. Por isso fico tapando ele com músicas e podcasts. Hoje, que não o fiz, me sinto só.

Só. Somente só.

Queria colo, queria ser mimada como se estivesse a fazer - e estou - o mais importante dos trabalhos e todo o resto pudesse esperar porque agora só me mimar importava. Queria ser constantemente abraçada e que me lembrassem de beber água, com o copo já na mão. Peguei pra você. Quer sim! Queria não ter tempo pra sentir falta dessas miudezas. Queria não ter que fazer pedidos. 

E além de só, queria não me sentir culpada por cada um desses sentimentos. Queria não ter vergonha e nem pensar que, ao sentir-me assim, magoo alguém que, de repente, acredita que está fazendo o que deve como deve. Me sinto só e culpada. Me sinto carente e nunca gostei de ser essa pessoa - talvez por isso ainda seja... 

Sinto o inferno astral se instalado com força. Os fins dos ciclos são sempre pesados, pra quando acabar mesmo, a leveza se instalar.

É como dizem... Vai passar.

Mas enquanto não passa, é isso. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

É menino!


Pronto, filho. Agora já sabemos que você é um menino, como suspeitávamos, e podemos te chamar pelo nome que escolhemos: Davi.Tenho certeza que não faltarão oportunidades pra, quando você crescer, contarmos o porquê desse nome. Primeiro, ele é curto, simples, forte. Um nome tradicional, histórico, até. Depois, porque foi o  primeiro e único nome que eu e seu pai concordamos. Mas, principalmente, porque é uma espécie de homenagem a um amigo muito especial do seu pai.

Um amigo que eu não cheguei a conhecer mas que, pelo que seu pai conta, foi uma pessoa corajosa, serena e cheia de sabedoria pra compartilhar. E foi uma pessoa muito sorridente - daquelas que sorriam sempre. Isso eu não tenho tanta certeza, mas gosto de imaginar assim, pois só o vejo nas fotos com o sorriso bem aberto, daqueles sorrisos que franzem até os olhos. Então, acho que essas quatro características fazem dele merecedor dessa homenagem. Com certeza seu pai vai poder te contar muitas outras...

De uma certa forma, acho que isso representa também a importância que têm os amigos de verdade. Demora até que a gente os encontre e os perceba, filho. Muitos amigos vão e vem com o tempo. Mas alguns estarão sempre conosco, mesmo que não estejam por perto. E isso tem uma força, uma magia...

Agora, que sabemos que você é o Davi - e até temos alguma ideia de como é o seu rosto - a ansiedade em te encontrar cresceu ainda mais. As pessoas já dizem com quem você se parece e seu quarto já começa a tomar forma. E eu estou aqui, ainda em quarentena, escrevendo, sentindo seus chutinhos e tentando imaginar como será quando você nascer.

E já imagino a gente em diversos lugares, vivendo várias aventuras - e você recebendo amor de todos os lados. Você já é muito amado e querido e esperado. E quando você chegar, o que não vai faltar é colo e abraço e beijo e brincadeiras e sorrisos pra você.

Espero que você chegue num mundo mais saudável, mais tranquilo. E que a gente possa ir ao parque, piscina, praia, na casa do vô, na pracinha. E brinque de carrinho e leia histórias e faça cabanas e acaricie gatos e ouça música e cante e converse e sonhe. 

E tomara que seu pai toque cada vez mais violão pra você - porque eu também amo! - e que ligue a moto pra você dar risada do tremelique do motor. E que seu vô deixe você brincar na grama e depois puxar folhas das árvores do pomar. Que seus tios te carreguem nos ombros, que suas avós te encham de beijos nas bochechas e mimos. E que a gente possa ser cada vez mais feliz - mesmo diante das dificuldades e perrengues. 

Mamãe te espera ansiosa, filho! Cresça bem gostosinho aí na barriga. Curte essa água e esse escurinho, que eu te espero numa boa. Quando chegar a hora, pode vir, que eu te carrego. Te nino e te ajudo a entender esse mundo doido, iluminado, barulhento e meio frio, as vezes. 


terça-feira, 18 de agosto de 2020

a neura nossa de cada dia

A dor e a delícia do isolamento social é o tempo livre. As vezes é muito bom (mesmo) não estar mais naquela correria doida, não ter compromissos todos os dias, não ter que olhar na agenda pra não correr o risco de marcar duas coisas pro mesmo horário e nem ficar calculando qual hora vai sobrar pra comer ou fazer xixi no meio de tanta tarefa. Mas, ao mesmo tempo, diz o ditado: cabeça vazia, oficina do diabo. 

Eis que, diariamente, me pego com uma neura ou ansiedade diferente. Às vezes, ela dura poucos minutos, às vezes vai a tarde toda. Ontem, por exemplo, estava na bad da profissional que foi obrigada pela pandemia a abrir mão dos planos e metas quase alcançadas, dos inúmeros freelas e parcerias e tudo mais. Estava claramente angustiada achando que minha carreira (as três ou quatro) tinham acabado e que meus esforços dos últimos anos tinham sido em vão. 

Durou uma horinha, até começar a rir do podcast Calcinha Larga e esquecer da neura.

Hoje, ao contrário, acordei bem. Vendo as fotos do meu celular, encontro uma do dia em que meu guarda roupa foi instalado e estava, portanto, perfeitamente arrumado. Bateu a bad de pensar no estado do mesmo. "Pô, tô em casa todo dia o dia todo e tá tudo uma zona". Mas como essa era uma neura fraquinha demais, com ela veio emendada a neura número dois do dia: o quarto do bebê não tá nem perto de estar pronto.

Ok, faltam 19 semanas pro Natal. Mesmo assim, o quarto do bebê continua sendo um closet bagunçadinho. As coisas do neném estão enfiadas em sacolas e malas e os carrinhos estão empilhados embaixo de um lençol roxo. Nada ali remete a um quarto de bebê. Não tem berço nem cortina nem enfeite nem nada. Aí veio a bad "não fiz nada ainda" que, claro, veio acompanhada do medo do isolamento social acabar e, portanto, acabar o tempo livre e aí eu, cada vez mais e mais barriguda e sem ar, me arrepender de não ter feito tudo isso antes. 

Não aguentei. Fui lá e esvaziei a parte de cima da cômoda do bebê (que estava cheia de coisas nossas...), esvaziei meu pedaço do guarda roupa onde ficarão as gavetas, assim a roupa que estava lá já foi arrumada nos lugares onde ficarão daqui pra frente. Guardei sapatos e vestido de festa... Guardei as coisas do bebê todas juntas e liberei o espaço do berço. Amanhã vou limpar as patas de gatos das paredes. 

Já deu um certo alívio no coração "adiantar" essas coisas. Essa semana ta passando devagar, mas em breve chega o berço (daqui uns dez dias...) E isso também vai fazer com que eu me sinta melhor... Estou efetivamente ficando ansiosa com mais frequência, ao mesmo tempo com medo e querendo que o bebê chegue logo, que o tempo passe, que chegue logo o segundo natal no #o13dobloco5, dessa vez com chorinho de recém nascido.

Vou arrumar algum artesanato pra fazer pro quarto do bebê, pra passar o tempo, me acalmar, me ocupar e sentir útil. Me aguardem...

domingo, 9 de agosto de 2020

Escolhas

Hoje é domingo, dia dos pais. Fiz um almoço caprichado pro meu, recebi ele na minha casa arrumada e limpinha com uma caneca de cerveja geladinha e um abraço apertado - sim, passamos os últimos 4 meses e meio sem abraços, mas hoje eu burlei as regras e dei um abraço no meu pai. E aí, no final do almoço, quis tirar uma foto com ele e o meu marido. O meu pai e o pai do meu filho.

E aí fiquei pensando... Quando eu estava pra nascer não sabia que família me receberia. A gente normalmente atribui essa escolha a Deus - uma força do universo que deixou tudo preparado para a nossa chegada. E fui muito bem recebida. Tive e continuo tendo todo o amor, carinho e apoio da minha família - pai, mãe, irmãos, tias... Mesmo meus avós, que já se foram, sempre foram queridos e cuidadosos (minhas principais memórias com meus avós maternos são meu avô me recebendo na casa dele com chocolates e minha avó me fazendo roupas na sua velha máquina de costura ou bolos na sua cozinha). 

Hoje, no entanto, é o primeiro dia dos pais que passo com um filho na barriga. Um bebezinho, que ainda está se formando e crescendo e se preparando para estrear nesse mundão de meu Deus. 

E aqui, talvez, eu decepcione um pouco o leitor desavisado. Explico: eu sei que a gente tem, por unanimidade, um certo apreço pelas histórias cheias de conveniências  do destino, acasos inexplicáveis, almas gêmeas que a vida tenta separar mas não consegue e coisa e tal. Mas hoje quero falar sobre escolhas. 

Eu - escorpiana, com ascendente em capricórnio e lua e virgem, ou seja, a rainha do controle - deixei sim o destino fazer sua mágica, mas fiz, principalmente, escolhas. Tomei decisões. E escolhi, com todas as letras, quem haveria de ser o pai dos meus filhos. 

O leitor mais informado pode achar estranho, porque sabe que a gente tem uma história cheia de amor à primeira vista, paixão avassaladora, coincidências e entregas - e dramas - dignos de um filme da Disney. Mas conforme a coisa foi rolando e paixão e drama foi se consolidando em amor, admiração, parceria, companheirismo... Eu fui, dia após dia, escolhendo esse homem para ser o meu companheiro de vida. Meu marido. Meu abrigo. Meu parceiro na criação de crianças incríveis. 

Quando ele me pediu em namoro ele me disse "me sinto feliz por ser VOCÊ". Claro: sempre quis ser mãe, mas na minha cabeça isso vinha depois de uma série de acontecimentos e vinha com uma noção bastante clara das premissas primeiras - daquilo que eu esperava daquele que estaria do meu lado. E é assim que eu me sinto nesse momento: feliz, sim, muito, por estar grávida. Mas feliz, principalmente, por ser de um filho dele. Do meu marido, meu melhor amigo, meu amor. Por estarmos na nossa casa, nosso canto, nosso aconchego. Construindo nossos sonhos - os individuais e os conjuntos, juntos. Por rirmos tanto - e por eu poder chorar no seu ombro também.

Hoje eu tenho exatamente a vida que eu sonhei, desejei e planejei - ao lado da pessoa como eu sempre sonhei. Então, é isso: nesse dia dos pais, um brinde de cerveja zero álcool ao pai que Deus escolheu pra mim e ao pai que eu escolhi pro meu filho!

Um brinde ao destino e às escolhas, que nos trouxeram exatamente até aqui.

Um brinde a esses homens maravilhosos que acrescentam tanto à nossa vida. 


A esses dois - meu pai Carlos e meu marido Guilherme - todo meu amor e toda a minha admiração sempre pra sempre.