“Mamãe, por que a vovó morreu? Ela morreu por causa dela, ela só comia doce, ela não comia saudável. Eu não gosto quando as pessoas da minha família morrem. Eu sei que faz parte, mamãe, mas eu não gosto, é irritante! Eu fico muito bravo! Papai, sua mãe morreu, né? É, já era! Olha, papai, quanta flor na cama da vovó. Tem até um girassol rosa! Mamãe, a gente tem que ligar pro meu irmão, pra avisar que a vovó morreu! Tchaaaau, vovó!”
Como explicar a morte para uma criança de 5 anos? Diante do falecimento da avó do meu filho, precisei pensar rápido em como processar a notícia de uma forma que ele compreendesse. Chamei ele, o coloquei no meu colo e comecei: lembra, filho, que a vovó estava bem velhinha, dodói? Ele concordou. Então, a vovó morreu, filho, ela foi morar lá com o Papai do Céu e o Jesus Cristo. “Pra sempre?” É filho, pra sempre. “Mas eu não quero que a vovó morra.”
Expliquei da única forma que sempre entendi: a morte faz parte da vida, meu filho. Todo mundo vai morrer um dia, se tudo der certo, quando formos bem velhinhos e tivermos vivido bem a vida. Mas a morte faz parte. É normal, acontece.
Algumas lágrimas, um longo abraço. Na hora, foi o suficiente. Depois, vieram as perguntas. Primeiro o porquê. Lembrou do doce que a avó não podia comer por ter diabetes, mas que comia escondida sempre que conseguia. Depois, a culpou. “Ela morreu por causa dela", ele disse. Não se cuidou. Depois, quis saber quando ia ver a avó. Expliquei: no velório a gente se despede e depois tem o enterro. “Enterro? Na terra? Mas se enterrarem ela, como ela vai morar com o Papai do Céu?” Pensei…
Expliquei: sabe um copo de água, filho? “Aham.” O copo é como se fosse o nosso corpo. É a parte que é enterrada na terra. A água é o que vai dentro do copo: é nosso espírito e é essa parte que vai morar com o Papai do Céu. O corpo sem o espírito não serve de nada. E o espírito sem o corpo pode ir pro céu. Lá a vovó não vai ter dor, nem medo, nem ficar doente. Ela vai poder andar e brincar. Lembra que ela não andava mais, filho? Então, lá no céu ela vai poder andar de novo.
Ele consentiu.
Depois, quis saber porque eu não convidei ele pro dia do enterro do bisavô dele, meu avô que nem eu conheci. Ficou bravo por ter nascido depois dele morrer. “Eu queria ter conhecido ele!” Eu sei, filho, eu também.
“Mas mamãe… se as pessoas morrem, então pode ser que um dia o tio e a tia morram e até você pode morrer um dia.” Meu coração apertou. Não é cedo pra esse tipo de raciocínio? Relaxa, meu filho, mamãe vai demorar muito pra ficar velhinha. Vai demorar muito… Não se preocupa.
“Mamãe… eu vou ficar com saudade da vovó.” Sim, filho, vamos ficar com saudades. Tá tudo bem ficar triste e tá tudo bem sentir saudades. Sabe o que é importante? “O que?” Que quando a vovó estava viva, nós a amamos e cuidamos dela e ela amou e cuidou da gente. Lembra que vocês viam desenhos juntos e ela falava assim: ‘coisa linda de vovó!’?” Ele riu e disse que lembrava. Então, meu filho. É dessas coisas que a gente tem que lembrar. E ela vai continuar cuidando da gente, mas agora lá do céu. “Mas mamãe, pra cuidar tem que ficar perto e fazer carinho e como que ela vai fazer isso se ela morreu?” Ela vai mandar beijinhos de longe, filho, assim ó…! Joguei beijos pra ele, torcendo pra ele entender que tem amor que a gente não sente fisicamente e tem presenças que não são vistas, mas são lembradas.
Talvez ele cresça e esqueça dessa tentativa de explicação sobre como a morte é algo natural, inevitável e, sim, triste. Mas espero que, mesmo inconscientemente, ele se lembre que o que importa é o que fazemos da vida enquanto a temos. O amor que damos e recebemos nesse meio tempo entre a chegada e a partida.
Minha tosca explicação pode não ter servido muito pra ele, mas suas frases inteligentes e questionadoras com certeza serviram para mim. Que possamos encarar o luto com a naturalidade de uma criança que não entende muito bem quanto tempo dura o ‘pra sempre’, mas que imagina a avó brincando com Deus, sem dores, lá nos jardins do paraíso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário